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domingo, março 22, 2015

Amor rebelde, amor sincero.

Lá fora a lua escondia-se por detrás das nuvens que o vento ia arrastando no ar mas dentro do bar o ambiente era aconchegador. Éramos poucos e tinhamo-nos encontrado de forma inesperada e quase clandestina, num encontro marcado às três pancadas. Tínhamos ido parar ali como um grupo de perdidos que viajava sem rumo mas logo me apaixonei pelo sitio. O ambiente era um pouco pesado como a música Rock que vinha da sala do fundo e o fumo dava-lhe uma mística que libertava o meu lado rebelde.

Da mesma maneira que tinha caído ali sem saber como, também não sabia mais o que fazer com a minha vida. Queria esquecer que para muitos tinha a vida perfeita sem ninguém se dar conta do quanto me sentia incompleta. Faltava-me algo e esse algo eras tu. Reparei em ti como um gato que depressa fica atento a uma luz nova que aparece de repente no meio da escuridão. A tua irreverência captou a minha curiosidade. Não sei se era o maldito cigarro na tua mão que me estava a dar vontade de te o roubar para reparares em mim como eu estava a reparar em ti... não sei, mas algo em mim despertou depois deste momento. Queria a tua atenção, a tua irreverência e nem imaginas como te comecei a invejar.

Por momentos desejei ter a tua liberdade e a tua auto confiança. Quase te tornaste um Deus aos meus olhos e as tua palavras começavam a chegar-me ao coração. Mas foi ao toque que eu não resisti, quando as nossas mãos se tocaram por engano ao ir agarrar o copo que estava em cima da mesa, à nossa frente. Foi nesse momento que algo nos ligou e eu passei a existir para ti. Sorri e tu retribuíste, Como uma criança que não quer perder a sua atenção, comecei a brincar contigo ao toque e foge, que nem rato e gato, e quanto mais a tua pele tocava na minha, mais eu te queria! Queria que os teus lábios deixassem o copo que beijavas para virem beijar os meus; queria que as tuas mãos deixassem o cigarro para se interlaçarem nos meus dedos; queria que os teus olhos deixassem a televisão para se colarem nos meus.


E de repente o resto deixou de existir. De cinco passamos a dois e a música rock tornou-se na nossa banda sonora. Eram poucos os que podiam ver que naquelas quatro paredes existiam duas almas que se estavam a encontrar e principalmente nem tu te davas conta do quanto me estavas a libertar de uma prisão, onde há muito vivia. Contigo podia ser espontânea, autentica e mais do que aquilo que era fora dali. Não me julgavas nem me condenavas. O mundo era teu e eu queria-o contigo. E o único que me perguntava era onde tinhas estado até àquela hora?

Mas tal como um sonho, tudo mudou na hora de ir embora. Queria falar, queria tentar, queria mudar... mas a rotina chamou por mim. A noite deu lugar à manhã e aquele sitio acordou como se nunca ali tivéssemos estado mas mal tu sabias que já me tinhas marcado da mesma forma inesperada em que nos encontramos naquele bar rústico perdido no meio do monte, com música rock que, por uma noite, se tornou na banda sonora das nossas vidas. Era visível o desalento no teu rosto e creio que não consegui disfarçar o meu, mas o teu sorriso prometeu-me que amanhã irias estar do meu lado e eu corri atrás de ti.

Ana de Quina ( 20 Março 2015)

terça-feira, julho 15, 2014

Festas de Argozelo

Tendo em conta o artigo do São Bartolomeu Freixagosa sobre a falta de informação relativamente às festas da vila de Argozelo, em vez de deixar uma resposta direta no seu blog, decidi contar a minha experiência no ano passado (2013) e a minha opinião em relação às festas da vila que, infelizmente, se reflete em muito daquilo que é feito e deixado por fazer. Claro que há sempre excepções há regra, mas no geral as coisas acontecem da forma que as vejo acontecer.

  • Primeiro que tudo, quem já foi mordomo ou nomeado sabe que ano sim, ano não (ou ano sim, ano sim) é novamente nomeado. Há casos em que parece que não se sai da lista durante anos consecutivos, até fazer a festa. É uma situação triste, tendo em conta que há tanta gente que nunca a fez e a pode fazer: os que a querem fazer rapidamente se voluntariam para ajudar e para ser mordomos, mas como a lista é vasta, o mais provável é não ser aceite (nem que metades não façam a festa). No que toca aos casados não posso falar, mas a festa dos solteiros todos os anos acabam por ser as mesmas caras, isto porque a outra metade que podia fazer a festa prefere ir para as piscinas e ir passear, mas depois queixam-se que as festas não prestam quando não querem participar.


  • Depois há dois tipos de chefia: a organizada e a interesseira. A organizada pretende que quem participa se divirta e possa participar com as suas opiniões; a interesseira apenas pretende ver quanto pode pôr ao bolso (sim meus amigos, meter ao bolso é o temo certo). Já estive nestas duas situações e do ano passado foi o que me fez prometer a mim mesma que enquanto as mentalidades não mudassem, não voltaria a aceitar ser mordoma numa festa. Tive a horrível experiencia dos casados completamente ignorarem as opiniões dos solteiros a todos os níveis: na escolha dos artistas; no material de marketing das festas da vila; organização do bar; quermesse com artigos novos e virado para as crianças em vez dos horriveis cacos de todos os anos... tudo acabava na ordem do "Aqui isso não dá" e do "não temos dinheiro para isso". Então meus meninos, façam as festas sozinhos.


  1. Outra coisa que não entendo é porque as mulheres casadas não podem participar na mordomia? Por machismo? Por dar trabalho? Sempre seriam mais algumas cabeças a ajudar à festa e vamos ser sinceros, as mulheres são muito mais organizadas do que os homens de pastinha. É verdade que trabalhar com muita mulher junta pode dar mau resultado, mas quando trabalham todos para o mesmo, a coisa podia mesmo correr de outra forma. Por isso aqui fica uma chamada de atenção e seria ótimos para todos termos mais mulheres a participar, porque normalmente as solteiras acabam por ser adolescentes que, infelizmente, são completamente ignoradas pelas suas ideias pelos senhores casados.


  • Um dos erros de todas as festas de todos os anos é começar-se a trabalhar para elas só a partir do dia um de Agosto. Se querem festas boas em conduções, porque não se trabalha logo no fim das mesmas? Fazer festas de vindimas, cabazes de natal, jogos tradicionais durante o ano, atividades culturais para promover a terra e angariar mais dinheiro, ter produtos regionais num local específico para vender para as festas... há uma infinidade de atividades que se podem fazer durante o ano, com vontade e espirito de iniciativa, que é o que falta em demasia nesta terra. É por isso que em Junho ou Julho se veem cartazes das festas das outras aldeias espalhados pelos cafés de Argozelo e só quinze dias ou uma semana antes das férias em que se sabe, em Argozelo, do programa das festas.



  • Isto leva-nos a outro problema de mentalidades: infelizmente as festas de Argozelo fazem-se para as pessoas da terra, que cada vez têm menos interesse nelas e não para os que vêm de fora. Por isso é que a cada ano se perde mais e mais público e acaba-se por ir parar às festas por engano, porque se estava de passagem e ouviu-se barulho. Antes nem era preciso fazer publicidade, porque bastava passar no meio do povo para se perceber que havia festa e vida na vila... mas desde que se mudou o lugar das mesmas isso já não acontece, por isso mesmo as estratégias têm de ser outras. É óbvio que as pessoas de Argozelo merecem as suas festas, mas o seu intuito deve ser chamar pessoas de fora, dar a terra a conhecer, conviver.


Mais uma vez, é preciso mudar mentalidades, mudar de atitude. Trabalhar para o bem da comunidade e não para mostrar que se fez. Ter orgulho das responsabilidades que se têm e dar o melhor de nós para o mesmo: Argozelo!

O que era suposto afinal?

Quantas vezes não desejamos fugir da rotina? Em vez de fazermos aquilo que "é suposto"? Em de nos limitarmos a viver mais um dia igual ao outro? Quantas vezes não queremos fazer algo diferente? Desviarmo-nos daquilo que sentimos ser o nosso próprio caminho... mas quem nos impede? Obrigações? Compromissos? Preguiça? Um inumero mal de desculpas que encontramos para não sairmos da nossa zona de conforto. É um risco, é desconfotável e achamos sempre que algo vai correr mal se não "estiver nos planos" dos nossos acontecimentos. E o que é a vida afinal, se não um risco? Do que serve a rotina se não a podemos quebrar? Se o inesperado não existisse, o que seriam as nossas vidas?

Um dia peguei no carro à hora do almoço e decidi frazer algo "inesperado". Fui direta para o monte e decidi ir almoçar fora. Levava uma salada e uma garrafa de água. Ao chegar ao local, sentei-me à beira do precipicio: Lá em baixo estava o rio, a natureza e a estrada que a atravessava em paralelo com aquele rio. Deixei o telefone no carro e fiz questão de são ser encontrada. Tinha aproveitado e deixado o radio a tocar, tendo como banda sonora músicas dos anos 80, que sempre me fazia voltar atrás no tempo. O vento soprava de forma delicada e a salada refrescava o calor que se sentia àquela hora da tarde. Embora estivesse sozinha sentia-me protegida e o melhor de tudo era sentir-me realmente ousada por estar a fazer algo fora do comum, algo que "não era suposto" e estar a fugir à rotina. Por momentos, imaginava-me a viver uma outra vida, tudo graças àquele momento impulsivo. E não tinha sido por acaso que me tinha sentado no limite do precipicio, sentia-me no limite de mim mesma, da minha vida.





Quando terminei reparei em algo que chamou a minha atenção. Uma águia ou falcão planava mesmo à minha frente. Ele, tal como eu, guiava-se pelo sabor do vento. As suas asas estendidas não batiam. Planava apenas. Às vezes aproximava-se do solo, confundindo-se com o rio que não parava de correr e outras vezes parecia que se iria perder na imensidão daquele céu azul. Houve um momento em que parecia apenas planar a observar-me, tal como eu estava a fazer, sentada naquele precipicio. Ele não soube mas naquele momento invejei-o. Invejei a sua liberdade, as suas asas abertas e o desconhecido que tinha de enfrentar. Era o rei dos ares, enquanto eu, mesmo sendo a dona da minha vida me sentia presa a uma rotina que queria cortar a todo o custo, da qual pensava não conseguir escapar até àquele momento. Fechava os olhos, sentia o vento, o som do rio lá em baixo e tentava sentir o mesmo que aquele animal selvagem. Respirei fundo e voltei a abrir os olhos. Porque tinha de ser tudo tão complicado? Porque tinha de ser tudo tão "suposto"? O que era suposto afinal?

Decidi caminhar. Não sei quanto tempo a caminhada durou, apenas sei que me perdi nos meus passos e nos meus pensamentos enquanto andava às voltas naquele recinto de capelas e de precipícios. Apesar de tudo era reconfortante estar ali, longe de tudo e de todos, onde me podia sentir compreendida pela próprio natureza, sem me sentir julgada. Depois da caminhada fui embora, novamente no carro. Fui fazer "o que era suposto" para o meu dia-a-dia, mas antes de voltar para o trabalho, regressei àquele lugar. Estacionei o carro em frente à capela, subi as escadas, saltei para o muro onde ainda batia o sol e comecei a escrever. Não só tinha quebrado a rotina naquele dia, como o tinha feito duas vezes. Para principiante já estava a arriscar. Mais uma vez não quiz ser encomodade e deixei o telefone no carro. De quando em quando passavam outros carros e, embora muitos estivessem curiosos com a minha pessoa ali sentada, nenhnum se atreveu a parar. Eu fingi que não os via, que continuava sozinha naquele lugar. Agora era apenas eu, a natureza, uma folha em branco e uma caneta na mão. E isto sim, era o que o eu achava que era suposto eu fazer, aquilo que realmente me dava prazer. E de algo inesperado nasceu uma nova rotina e todos os fins da tarde ia escrever para cima daquele muro. Chamava-lhe o "muro da liberdade", a mesma que eu não tinha, sem ser naquela hora em que o mundo era meu.

segunda-feira, fevereiro 18, 2013

*Transmontanismo* - Parte II

A pedido de algumas famílias e ao sucesso do primeiro post sobre palavras transmontanas, decidi escrever um seguimento de novas palavras que tenho ouvido, aprendido e assimilado no meu vocabulário. Então aqui fica mais uma listinha dessas palavras. Espero que gostem tanto como a primeira.


Testo: (não confundir com testa) muito parecido com teto, mas nada tem a ver com isso. Este nome atribui-se às tampas das panelas, por isso, se vier a trás os montes e lhe pedirem um testo é porque certamente andará alguma tampa perdida algures.



Escarolado/a: alguém que anda bem vestido/a ou muito limpinho/a.



Tchicha: a tão famosa palavra que define um verdadeiro transmontano. E nada de dizer "chicha" sem o T, caso contrário, vai ser olhado de lado. Tudo aquilo que seja carne, resume-se a tchicha, porque posta é Posta!



Meotes: A primeira vez que ouvi isto, fiquei muito séria, porque me pareceu uma palavra um pouco agressiva, até ficar a saber que não passavam de pares de meias!



Trouses: E ao contrário dos meotes, que me meteu medo, esta palavra simplesmente me fez rir até rebolar no chão, principalmente depois de saber que se referiam aos boxers masculinos. Uma versão um pouco apaneleirada da palavra inglesa "trousers".



Olhapudo: É alguém muito guloso ou que come muito. Muitas vezes usa-se para as crianças que, mesmo sem comer, comem com os olhos.



Cruzetas: Quase que andei à pancada por causa desta maldita palavra. Não é nada mais, nada menos que os chamados cabides para pendurar a roupa no roupeiro. Isto porque os Cabides, nesta terra, afinal são aqueles pés altos ao lado da porta para pendurar os casacos!



Amarrar: Só esta palavra dava para criar um dicionário de sinónimos. Pode ser usada como sinónimo de apertar, baixar, apagar... e sabe deus o que mais! Usada em expressões como "Amarrar o lume", "Amarrar a saca", "Amarrar a camisa"... Nesta terra amarra-se tudo!



Amanhar: Normalmente só se usa para o peixe, mas esta é outra das palavras que serve para todos os casos e efeitos que tenham a ver com o quotidiano. "Amanha as calças", "Amanha a janela", "Ter a vida amanhada".



-» "Chegar a roupa ao pêlo": um conselho, se ouvirem alguém dizer isto, corram e desapareçam depressa. Basicamente é uma forma simpática de alguém muito nervoso ameaçar com uma bela porrada!



Atremoços: uma forma mais... bom... estranha... de dizer tremoços.



Carreta: nome para os carrinhos de mão.



-» "Disso": do verbo dizer, "eu disse", ele"disso"... não há nada que enganar!



-» "Fizo": o mesmo se aplica ao verbo fazer "eu fiz", "ele fizo"... tudo para não haver misturas nem duvidas que foram eles!



-» "Quizo": novamente para não haver confusões, "Eu quiz", "Ele quizo"!



Lúzios: se lhe disserem que tem uns lúzios muito bonitos, não leve a mal, simplesmente lhe estão a gabar os seus olhos.



Trai: Esta pode trair muita gente quanto ao seu sentido e significado HAHAHA. Basicamente vem do verbo trazer, "Trai os panos para lavar".



Pinga: Associada à bebida, tanto pode ser uma "pinga de vinho" como uma "pinga de água", mas quando se trata da verdadeira e única Pinga é porque a borracheira foi forte!

quarta-feira, dezembro 12, 2012

5x5= NATAL

Depois de algum tempo de um lado para o outro, lá tive tempo para me sentir e vir escrever um bocadinho. E claro, não podia faltar o tema do Natal que é sempre uma época bonita do ano, tirando, claro, o sentimento materialista e consumista desta época. Este ano dou mesmo Graças a Deus por não ter de passar algum tempo metida dentro de centros comerciais entupidos de gente cheia de lamurias com a crise enquanto gasta rios de dinheiro com prendas para dar e vender para toda a família, amigos e até o animal de estimação. Parece que é a única altura do ano em que a carteira não olha aos euros, só porque parece mal não dar prendas. Por incrível que pareça, este ano não quero saber de prendas, mas sim de ter a família reunida como há muitos anos não tinha! Essa prenda chega-me e sobra para me deixar feliz.

Mas claro, Natal que é Natal, tem de ser com luzinhas e decorações a dar com pau (ou não fosse eu uma fanática por coisas de decoração). Este ano não há cá coisas chiques: uma árvore de natal reciclada e uma decoração de janela também reciclada. Além de ficar super personalizado, acaba por ter o dobro do valor por ter sido euzinha a fazer as coisas. E claro, também se guarda de um ano para o outro. O que interessa é dar um ar mais festivo à casa e claro, poupar uns trocos! Claro que Natal sem lareira não existe e para completar mesmo o cenário perfeito, só falta uma nevada valente lá fora (que este ano parece - outra vez - não querer nada comigo). Pode ser que ainda venha até ao Natal.

Venho mesmo é aproveitar para desejar um óptimo natal a todos, repleto de coisas boas, comida da mesa e muito barulho de risos felizes =)


quarta-feira, outubro 24, 2012

*Transmontanismo* - Parte 1

Não haja dúvida que, o que mais nos chama a atenção quando estamos fora de casa, ou neste caso, da nossa terra ou país, são as diferenças linguísticas. Quer seja da própria língua materna ou de regionalismo, o nosso ouvido torna-se num órgão muito mais desenvolvido para a captação de "coisas estranhas" e diferentes que nos chegam por esse canal. Mas mais difícil ainda é ficar longe da vontade de querer partilhar esse conhecimento e, até, fazer parte integrante dele. Já muita gente me diz, pelo telefone, que tenho "um sotaque diferente"... fica difícil com o convívio não apanhar "tiques linguísticos" desta região nortenha. Dá um certo orgulho sentir que fazemos já parte de uma outra cultura, embora pense que não seja muito agradável a mistura entre o lisboeta e o transmontano - e nada de confundir o sotaque transmontano com o sotaque nortenho, para não ofendermos ninguém!

O que acaba por enervar é aquela vontade de querer andar sempre com um caderninho para escrever aquelas palavras que ouvimos e queremos memorizar - ou anotar- para não nos esquecermos da nova palavra que aprendemos... mas não podemos, porque simplesmente temos mais que fazer do que andar com um bloco de notas e quando andamos não o queremos mostrar para não parecermos alguém do outro mundo que anda a anotar o que  os outros falam. Agora até me deu curiosidade de saber a reacção que as pessoas teriam, mas vamos prosseguir. A verdade é só uma, as expressões linguísticas são tantas, os nomes das coisas são tão variados, que adquirimos  uma maior riqueza vocabular numa questão de minutos. E claro, é esse vocabulário que nos torna parte integrante do local onde estamos, como uma grande família.

Nalgumas situações fica difícil contar o riso por realmente não estarmos a perceber nada do que nos estão a dizer mas ser tão engraçado o que ouvimos.  Sem falarmos nas constantes trocas dos Bs com os Vs... e o tipico som TCH no início ou no meio de algumas palavras. Mas o melhor de tudo é ouvir as formas de tratamento na terceira pessoa do plurar e ouvir, constantemente o "vê-de bem", "ide lá", "vinde cá", "andai", "dê-me cá"... e por aí em diante!  

Aqui ficam algumas das expressões ou palavras que mais tenho captado (uma vez que não tenho possibilidade de andar com um caderno de apontamentos para poder ter mais para partilhar):

Mô filho: forma carinhosa e encurtada de dizer "meu filho", quer seja no masculino ou no feminino.

Diabos: uma vez que aqui muita gente tem muito tempo para pensar em doenças, anda tudo muito preocupado com os seus diabetes e colesterol (castrol).

Não digas que vais daqui: basicamente quer dizer, "e já vais com sorte", por isso, nada de queixinhas.

Biqueiro/a: pessoa que come mal, que tem má boca.

Cajata: o mesmo que bengala.


-» Cibo (de pão): não é nada mais do que um bocado de pão, o que também pode ser um carolo. E se por acaso pedirem a carocha do pão, estão a pedir o "cu" do pão.

Cancelo: porta 

Starelho ou Estarelho: o mesmo que um alguidar, mas baixo e comprido, para recolher a roupa do estendal.

Rodilhos: panos da cozinha.

Catota: porcaria que se prende ao pelo dos animais, mas que se pode usar para designar uma pessoa porca  (catoteiro/a)

Larego: pequeno porco bebé, também podendo o nome ser atribuído a uma pessoa porca (larega), ou como um termo carinhoso de tratar alguém (lareguinho/a).

Parreco: Pato pequeno.

Trocho: Caule das couves ou um pedaço tosco de pau.

 Emboligar: sujar-se ou revolver-se no pó.

Cacharro: o mesmo que panela.

Malga: pequena taça para comer a sopa ou beber o leite.

Tantinho/ Tantico: um pouco de alguma coisa.

Zamboneiro: alguém que diz mentiras, mas com intuito de se meter com as pessoas.

Lambefe: bofetada, chapada ou tabefe.

Galifaz / galifante: rapaz novo que já começa a ter barba.

A formiga já tem catarro: jovem que já tem vaidade.

Ter Proa: o mesmo que ter vaidade.

Certamente que haverá muitas mais expressões para "explorar", mas espero voltar a escrever sobre este tema e encontrar mais coisas novas para partilhar!

sábado, abril 14, 2012

Uma noite do "Caralho"

Quem me conhece sabe que não tenho grandes (ou até nenhum) problema em dizer "asneiras", principalmente quando estou por Lisboa, onde toda a gente parece ter os ouvidos mais sensíveis no que toca a palavrões grosseiros e grotescos! Mas sendo uma semi-transmontana como sou, acabam sempre por me desculpar essas "asneiras" e o melhor de tudo é que nem quero saber se o fazem ou não. Se as quiser dizer, digo e o que não entendem é que não é por grosseirismo ou má educação, mas sim por diversão! Não há nada melhor do que mandar uma caralhada, porque sim, para chocar e para fazer rir e o que muitos não se apercebem é que, ao cair da noite, são os pudicos que as estão a dizer e sou eu que me estou a rir deles. Talvez um dia percebam que um "caralho" ou um "fodasse" não passa de um desabafo ou de uma pontuação no fim ou a meio da frase e que muitas vezes uma "merda" pode ser algo extremamente bom! E é nisso que eu, cada vez mais invejo os espanhóis, que usam e abusam desses termos grosseiros sem pudor, em público e na própria televisão, enquanto nós até encobrimos estes dizeres do nosso próprio dicionário, quando é algo que faz parte da nossa língua e linguagem diária (não para todos, é certo, mas transmontano e nortenho que se prese, usa diariamente)! Só mostra como ainda temos uma mente tão mesquinha perante nós próprios.

Mas fora de pensamentos e opiniões à parte, sem duvida que uma das melhores noites que tive foi cheia e repleta de caralhadas. Nunca pensei que alguém pudesse dizer tantas "asneiras" como eu digo quando me quero divertir, o pior é abusar disso e acabar todas as frases com um belo de um "caralho". Não foi um "caralho" qualquer, mas sim sentido e com muitos significados, ao ponto de a minha prima ser logo identificada como sendo de Argozelo pelo senhor segurança da discoteca Havana! Isto sim, é saber falar caralho! Ao inicio toda a gente pensou que a minha prima estava a ser agressiva, uma vez que estava a conhecer os meus amigos pela primeira vez e digamos que começar logo com um "O que é que queres caralho?" quando lhe pedem para tirar uma fotografia, assusta qualquer um, mas com o passar da noite, toda a gente percebeu que era apenas um estado de espírito. O Samuel ainda teve duvidas e perguntou-me "Ouve lá, a tua prima aprendeu hoje a dizer caralho foi? É que nunca ouvi ninguém dizer tantas vezes caralho numa só noite!", a verdade é que até eu acabei por achar que isso tinha acontecido, porque ela parecia mesmo uma criança que tinha aprendido uma nova palavra e a passou a repetir durante todo o santo dia!

Pior do que isto é ter mais crianças do nosso lado, com idade para ter juízo a ajudar à festa e a incentivar a caralhada. "Bota aí minha pomba, é isso mesmo caralho" e claro, a pomba não se calou toda a noite... e ainda bem, porque nunca me ri tanto como nessa noite. A pomba da minha prima estava completamente absorvida pelo espírito transmontano e fez questão não apenas de o demonstrar mas de o partilhar com toda a gente. E lá está, se ela não tivesse tido a excelente ideia de começar uma maratona de caralhadas pela noite fora, até ás seis da manhã, agora não teria nada de interessante para partilhar, nem uma história para contar aos filhos dela para a envergonhar e certamente que a noite teria sido bem mais chatinha. Por isso, já sabem, sempre que o vosso dia ou a vossa noite esteja a ser fraca ou enfadonha, basta expor esse desapontamento com umas belas de umas caralhadas, que tenho a certeza que isso passa!

quinta-feira, fevereiro 23, 2012

Luar!

Uma das últimas mensagens que me mandaram antes de voltar para a capital, foi algo como "Se poderes, vai ver a lua!". Por acaso não fui, porque estava a dormir, ou pelo menos a tentar, uma vez que a viagem seria no dia seguinte e a ansiedade de fazer uma viagem de regresso não me deixava descansar. Tanto o coração como a razão queriam ficar, mas o meu corpo teria de voltar, bem cedo. Imaginei então uma lua bem brilhante, com luz suficiente para iluminar caminhos cobertos de sombras para quem neles tivesse de passar. Um quadro apenas composto por elementos da natureza... e senti-me livre, que fazia parte de tudo aquilo e que no fim encontraria aquela mensagem escrita no chão, olharia para a lua e seria abraçada e aconchegada por um corpo quente, cheio de carinho para dar, que me iria proteger daquela noite fria e gravar a nossa sombra naquela paisagem!

Sonhar não custa, mas melhor que o sonho é viver na realidade. Aquela imagem, mas principalmente aquela mensagem foi o suficiente para reviver momentos passados e dei por mim, novamente, dentro do meu carro, a conduzir por aquelas estradas geladas, acompanhada por um luar que me apresentava as paisagens mais deslumbrantes que algum dia poderia ver. Toda aquela natureza no seu esplendor, todo aquele universo em cima de mim, que me obrigava a parar, sair e congelar ao ver estrelas cadentes, enquanto me sentia tão insignificante e todos os problemas passavam a ser nada em todo aquele infinito. Fechava os olhos e sentia o sangue percorrer o meu corpo como uma droga de adrenalina, porque sentir-me mais viva do que senti naqueles momentos, é impossível.

Perguntei se a lua estava bonita, ainda que não a pudesse ver e a resposta com uma simples palavra "Linda", trouxe consigo a saudade que crescia de todos aqueles momentos mas também da mesma pessoa que me respondia que, ainda eu não tinha partido, e já sentia a minha falta... e eu a dela! E são nestes momentos, de poucas palavras, grandes emoções e pequenos grandes gestos que os sentimentos se tornam mais reais, sejam eles de que tipo forem. E pelos olhos daquela pessoa vi-me fora da cama, a olhar para aquela lua que pairava por cima de nós... mas a manhã chegou e a aurora apagou aquela visão nocturna, levando-me para uma viagem indesejada mas sem volta a dar. Ainda assim é bom saber que seja cá ou lá, haverá sempre luar e noutra parte alguém poderá estar a olhar para ela, para me dizer como está linda, enquanto pensa em mim!

quinta-feira, fevereiro 09, 2012

Cappuccino

Há quem seja viciado em café, há quem seja viciado em chá, há quem seja viciado em chocolate... eu simplesmente tornei-me uma viciada no Cappuccino!

Não há nada que me dê mais prazer do que ver toda a gente a pedir café e, quando chega a minha vez, vai um Cappuccino... o pior é quando não há (porque não há pacotes da nestle ou porque simplesmente não sabem fazer - digamos que não é uma arte para todos) e depois lá tenho que me resignar a pedir um café cheio ou um chá todo exótico. É assim que acabamos por fazer figura de tótó... mas quando há, sabe mesmo bem ver a nossa chávena maior do que a dos nossos amigos e toda aquela espuma coberta com chocolate... hummmmm... É a capacidade de matar dois desejos de uma só vez.

Bom, mas o melhor de tudo num Cappuccino, como em qualquer bebida, não acaba por ser o seu sabor ou aroma, mas sim a companhia! Não importa que seja bebido em casa com a família, num café com os amigos ou à lareira num serão a dois, o que torna esta bebida tão especial, acaba por ser as recordações desses momentos e serões passados na companhia de alguém importante.

Esta bebida tem-me acompanhado neste Inverno e depois de ter tomado mais um Cappuccino na companhia da família, dei por mim a viajar até Argozelo, recordando o frio e as noites geladas, mas principalmente as companhias de quem me acompanhava nesta deliciosa bebida quente!


"A vida não é uma questão de marcos, mas de momentos"

sábado, fevereiro 04, 2012

Contagem decrescente...


Em contagem decrescente para um regresso indesejado à capital, fico com um sentimento saudosista dos momentos fantásticos passados neste terra linda, onde o frio nos faz sentir vivos, onde o sol nos aconchega e onde o nevoeiro nos faz esquecer de nós próprios. Estes 5 meses passados em Argozelo, talvez de uma forma inesperada e forçada, foram sem dúvida os melhores de muitos meses de Agosto aqui passados e uma certeza fica no pensamento: independentemente de ser apenas um regresso de 3 meses à capital, o coração fica cá e a vontade de voltar é cada vez maior!


Na lembrança ficam momentos hilariantes, como a noite de todos os santos, onde os fiadeiros reinaram e a serenata dos meninos à minha janela, tornaram este dia ainda mais especial. Ficam as vitorias partilhadas do nosso Glorioso no café e os "maus tratos" dos meninos Rui e Daniel à minha pessoa, mas que no fundo, viram a vida deles bem mais animada depois da minha chegada (admitam vá). Ficam os passeios, os choros e os sorrisos partilhados com as meninas e as frequências obrigatórias dos jogos do Argozelo aos domingos. Ficam as aulas nocturnas no IPB, onde o carro congelava todas as noites e as boleias partilhadas, entre histórias trocadas e vividas, ora de Lisboa, ora de trás-os-montes. E enquanto uns querem voltar às origens, outros querem que as suas origens se tornem outras!

E de tudo isto ficam lições a tirar:
  • Que os amigos não são aqueles que estão sempre do nosso lado, mas os que aparecem sem esperarmos, quando mais precisamos deles.
  • Que não importa o tempo que deixamos de falar com um amigo, quando voltamos a estar juntos sentimos que nada mudou e sabemos que será sempre "aquele" amigo.
  • Que, às vezes, conduzir à noite, pode ser o momento mais espiritual que podemos viver.
  • Que, num momento, tudo pode mudar completamente a nossa vida.
  • Que não importa o que dizem de nós, mas sim sabermos aquilo que somos.
  • Que só damos valor a coisas quase insignificantes quando percebemos que sentimos a falta delas.
  • Que a geada pode ser ainda mais bonita do que um manto de neve.
  • Que o frio pode ser esquecido com um sorriso ou um olhar confortante de uma boa companhia.
  • Que uma amizade é mais importante que um romance.

Que o lugar onde nos sentimos em casa não é feito de paredes de tijolos e cimento mas sim com as paredes do nosso coração.

quinta-feira, fevereiro 02, 2012

Reviravoltas...

Bom, já há muito que não tinha um blog e a necessidade ou tempo para escrever não tem sido muita mas como a vida dá muitas voltas... o bichinho da escrita voltou e como os "tempos de mudança" prometem muitas mudanças para mim, decidi voltar a este espaço cibernético para estar um pouco mais próximo daqueles que querem saber um pouco mais de mim, além das fotografias e conversas curtas do facebook!

Hoje algo atingiu-me como um raio e o passado, que muitas vezes deixamos para trás, volta ao presente. Dou por mim a pensar no destino e realmente não vale a pena fugir daquilo que temos de, mais tarde ou mais cedo, enfrentar. De regresso a Lisboa e à FLUL durante os próximos 3 meses, da forma mais inesperada e indesejada possível, será um ciclo que se fecha dentro de mim. apenas Espero que estes meses passem rápido e que tudo se resolva para voltar ao lugar onde realmente me voltei a encontrar depois de alguns meses à deriva.

Aproveito este espaço para meter algum material para as meninas que vão precisar de estudar um pouquinho mais para conseguir melhores resultados na escola nestes três meses que vou estar longe delas.

Desde já um obrigado a todos os que me fizeram companhia neste nordeste transmontano e um novo "olá" aos VERDADEIROS amigos que ainda deixei em Lisboa e que espero voltar a rever nestes tempos. Fica também um "até já" aos meus amigos transmontaninhos: RUI, DANIEL, FILIPA, ANA, POIO, ANDREIA e pessoal do CAP :)*

"NADA ACONTECE POR ACASO"