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segunda-feira, novembro 23, 2015

Sonho acordado enquanto caminho.

Caminho sem pressa, sem tempo, sem destino, sem mesmo saber qual o meu caminho. Sigo os meus passos, de um corpo que segue livremente uma mente que voa e viaja sem prisões. Piso ervas, pedras, terra e nada me parece deter. O frio apenas me acompanha e nem ele é capaz de me fazer mudar de ideias. Não penso, apenas olho e sonho com o que já foi e o que pode vir a ser.

Sonho com uma casa no campo, isolada mas acolhedora. Coisas pequenas e simples que aconchegam o coração. Sonho com cães a correr em volta do pátio e uma pequena horta mesmo ao lado, para colher aquilo que a terra me quiser oferecer. Sonho com a lenha amontoada no alpendre para nos aquecer neste inverno rigoroso e tu ao lume a preparar o jantar. Sonho com uma lareira acesa à nossa espera, tal como um chocolate quente acabado de fazer. Sonho com as paredes do nosso quarto cobertas de livros só para ti e um recanto à janela para descansares. Sonho com o passar das estações e com uma vida a dois.

Mas faltas tu. Caminho e não te encontro. Nem mesmo a penumbra te traz até mim. Caminho sem saber para onde e procuro-te. Tento-te encontrar mas há muito que partiste. E não quero olhar para trás, para aquele tempo em que sonhávamos com tudo isto. Mas sou um homem de cumprir palavra por isso vou fazer o que prometi. Vou procurar o nosso refugir, construir a nossa casa, ter os nossos cães e acender-te o lume sempre que tiveres frio. Irei dar-te um beijo enquanto cozinhas e esperar por ti para beber o chocolate quente. Vou aconchegar-te enquanto leres o teu livro favorito pela milésima vez e irei apagar a luz quando adormeceres... ou então deixo-a acesa, para não te voltar a perder.

Por agora caminho, para parte incerta, para algum lugar. Sei que me guias, sei que segues aqui do meu lado. Consigo sentir o teu respirar, o teu toque quente e ainda vejo o teu sorriso quando fecho os olhos. Sinto-te no vento a chamar por ti, sinto-te nos passos que dou para ti. Fica comigo assim, não partas mais e quando encontrar esse lugar, sei que foi o que tu escolheste... e onde antes não havia mais vida, sei que o meu coração sei vai encher de forças para erguer de novo uma vida contigo mas sem ti.

Ana de Quina - Novembro 2015

sexta-feira, dezembro 26, 2014

Um momento de inverno

Lá fora a neve caia de forma aparentemente uniforme e constante. A escuridão não permitia ver além da luz do candeeiro que iluminava a rua, não permitindo ver a serra coberta de um largo manto de neve. A chávena de chá fumegava, aquecendo as mãos de quem o bebia, fazendo esquecer o frio daquela noite. No parapeito da janela, a neve acumulava-se.

A luz preveniente da lareira iluminava o rosto dela, por vezes escondido atrás da chávena de chá. Olhava para a chávena e depois para as chamas da lareira, perdida em pensamentos flutuantes, tal como aqueles flocos de neve que ondulavam ao sabor do vento, mas que ela nem parecia reparar, nem sequer parecia ouvir o assobiar do vento lá fora. O que conseguiu chamar a sua atenção foi a fotografia de um beijo caloroso, dado numa tarde de verão no meio de um jardim apinhado de gente mas onde apenas aqueles dois seres pareciam existir. Regressava àquele passado com um sorriso, recordando aquele momento como se ainda ali estivesse a sentir o calor daquele corpo contra o seu, o sabor daqueles lábios e o aconchego daqueles braços que a envolviam. A forma como se lembrava de esquecer o mundo faziam-na ter certezas inabalaveis de um futuro próspero. Ela continuava a sorrir, segura de tudo estar bem.

De vez em quando olhava para a porta, onde o cão parecia esperar alguém, andando de um lado para o outro de forma impaciente até se sentar, dando-se por vencido pela espera. O livro continuava aberto na mesma página havia alguns minutos, enquanto outra chávena fumegava junto dele, em cima da mesa de madeira, em frente à lareira.

Uma porta bateu e, de imediato, os seus olhos encontraram aquele corpo coberto de neve, com lenha nos braços, empurrando a porta com o pé para poder passar e voltar a fechar sem ter que meter a lenha no chão. O cão batia a causa, caminhando junto a ele, que pousava a lenha num cesto de vigas, enquanto ela se aproximava para lhe sacudir a neve no casaco. Ele queixava-se do frio com um sorriso, enquanto ela acariciava-lhe o rosto, limpando a neve que se tinha derretido e transformado em água, como se cuidasse de uma criança frágil e que ainda não sabe o que é o mundo.

Sem pensar duas vezes, ele beijou-a na testa e depois nos lábios, indo-se aquecer junto da lareira, depois dela lhe ter tirado o casaco húmido e o ter pendurado junto à porta. Quando terminou, sentou-se no sofá, entre as mantas, acabando o seu chá. Sem demora, ele acompanhou-a, sentando-se do seu lado, pegando no livro e na sua chávena de chá. Tentava lembrar-se onde havia ficado, enquanto bebia o chá e o pousava na mesa. Olhou para ela, que o admirava sem pressas e em silencio. Percebendo aquele olhar, rapidamente se aproximou dela, deixando-a encostar a sua cabeça ao seu peito, ficando aninhada naquele corpo que a aconchegava. Ele lia o livro enquanto ela o ouvia, até o sono chamar por si e fazer esquecer o frio e a neve lá de fora, que teimava em não querer parar, parecendo não querer deixar de testemunhar o que unia aqueles dois seres inseparáveis.

Ana de Quina (2011)

domingo, novembro 23, 2014

Um dia de chuva...

A chuva caia de forma constante lá fora. Cada gota que se amontoava no vidro da janela, transformava-se num pequeno rio, que ao mesmo tempo separava pequenas gotas umas das outras. Conseguia ver o mundo ao contrário no reflexo de cada uma. Enquanto elas se uniam e separavam, no interior daquela casa velha em frente, a sua inquilinafazia e desfazia a renda vezes sem conta, enquanto eu apenas sabia encher linhas com palavras soltas.

Ela era uma senhora idosa, de cabelos grisalhos e longos, de um cinzento brilhante que contrastava com as nuvens chuvosas do exterior.Embora já tivesse uma certa idade, ainda mantinha um espírito jovem, pelo menos no olhar, que era doce e meigo. Sempre que nos cruzávamos na janela, tinha um sorriso para me dar. Enquanto fazia a sua renda, perdia-se na imensidão dos seus pensamentos. Acredito que voltava atrás no tempo, como forma de refazer o que tinha ficado mal feito, tendo assim oportunidade de desfazer a sua vida as vezes que fossem precisas para voltar a deixar tudo como deveria ter ficado. Cada regresso a um ponto mal feito, era mais uma saudades ou mais um engano que apagava dentro de si.

De vez em quando, confirmava se ainda chovia. estava tão perdida nas suas memórias que certamente se esquecia de ouvir a chuva. Ao contrário dela, não podia desfazer nada. Tudo o que escrevia, ficaria marcado e vincado em cada folha. Podia riscar, rasgar ou até queimar, mas jamais poderia desfazer as voltas que a caneta dava na folha e a tinta que deixava para trás. Para mim, só existia o caminho para a frente. Tentava imaginar como teria sido a sua vida. Não me parecia uma típica mulher da aldeia, amargurada pela vida, mas sim uma senhora que se tinha submetido ao próprio tempo e que há muito se tinha transformado na mulher que era. Acredito que ainda sonhasse, caso contrário não daria os seus suspiros constantes, nem sorriria tantas vezes ao fazer coisas tão banais como meter a agua a ferver para fazer o seu chá antes de ir à missa. Era uma mulher de poucas palavras mas com um bom sentido de observação.


Quase de certeza que também a intrigava a minha escrita e se questionaria muito sobre o que fazia, mas nunca me tinha perguntado nada. Observava agora que ela apenas se dedicava à renda nos dias de chuva. Era estranho, já que o tempo não permitia ter a claridade de um dia de sol, o que me deixava com mais e mais certeza de que aquele era o seu momento de saudade.

Gota a gota, ponto a ponto, ia desvendando os mistérios da sua própria vida. Mal sabia ela que, gota a gota, palavra a palavra, era eu quem registava os seus últimos momentos a recordar um passado longínquo, cheio de imperfeições como a sua pele agora enrugada. mas ela sorria, com os lábios e o olhar, e eu escrevia, tentando adivinhar os seus pensamentos, tentando adivinhar uma vida que não vi... e lá fora chovia, calma e pausadamente, sem pressa, coisa que nenhuma de nós tinha.

Ana de Quina (2014)