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quinta-feira, setembro 24, 2015

Tenho pena de quem não ama

Olho para trás e para a frente. A verdade de um lado, a mentira do outro. O certo e o correto em confronto. O sim e o não. De um lado os ricos, do outro os pobres. E aqueles que amam e aqueles que vivem de interesses... e no meio eu. A televisão enche-se com histórias de terror, politiquices que não trazem nada de novo, pessoas que vivem vidas fantásticas, famosos que fazem tudo sem ter nada, confronto de realidades distintas e aos poucos o amor deixa de existir. Volto a olhar para trás, para lá daqueles tempos de televisão, telefones e computadores. Olho para os tempos das cartas, das palavras escritas, das conversas cara a cara, do perigo de amar e invejo quem um dia viveu assim. Invejo quem realmente lutou, quem realmente sofreu e correu atrás, quem beijou às escondidas de olhares alheios, quem inventou histórias e usou os amigos como desculpas para encontros clandestinos. Custa a acreditar que uma história dessas ainda hoje exista? Existe sim. E os amores proibidos acabam por ser os mais verdadeiros.

Nos filmes tudo é sempre mais bonito e mais fácil, com finais felizes praticamente garantidos. Na vida real nem sempre é assim. Há lutas que podem acabar mal, as consequências podem ser demasiado graves mas o risco está em cada passo que damos na nossa vida. As probabilidades de se viver intensamente são escassas. Olhando para a frente, o romantismo morreu. As loucuras são para os malucos e os imbecis que não sabem o que querem da puta da vida. E aqueles que amam devem sofrer de uma doença qualquer que ainda hoje não encontraram cura, tornando-os estúpidos por completo. Olhando para a frente e para trás, os tempos não estão assim tão diferentes. O interesse é mais comum do que os sentimentos. Não há tempo para amar, não há tempo para parar o tempo e cuidar. E olhando para trás, é tudo mentira.

Se trabalhe no INES e fosse fazer um inquérito a casais, 1 em cada 5 (ou mais) diriam que não casaram com a pessoa que queriam, porque não lhe deixaram. Diriam que casaram por estabilidade de vida e não por amor, casaram por opção de terceiros e não sua. Diriam também que não fizeram o que queriam com as suas vidas, que não conquistaram os seus objectivos de vida e pior ainda, tinham desistido dos seus sonhos por estarem com quem não queriam. E hoje seria assim tão diferente? Há casos e casos mas... nem deveria haver um mas. Tenho pena de quem não ama, de quem não fez o que queria, de quem não lutou, de quem não, pelo menos, tentou. Pobres são aqueles que jamais chegaram a ser quem realmente desejariam ser. É difícil agradar toda a gente, e nós onde ficamos? É preferível viver uma vida de mentiras e não ter problemas.

Podia-vos contar uma história bem real, mas não conto porque ainda não sei o seu final e porque não quero que fiquem a saber mais do que eu, mas tenho a certeza que vos ia apaixonar da mesma maneira que me apaixonou a mim. Há muitas formas de amar e muitas formas de o demonstrar mas hoje em dia parece tão raro que quase pensamos só existir em livros, filmes e musicas. Parece-me tudo tão metódico, tudo tão certo e planeado que não gosto do que vejo e tenho pena, pena do mundo de mentiras em que vivemos. Vivam e deixem viver, amem e deixem-se ser amados e no fim voltamos a conversar. Dizem que o amor cura tudo e quando é verdadeiro não tem tempo, não tem momento certo e simplesmente acontece... mas já ninguém acredita em contos de fadas pois não? Não é preciso, pois não há nada mais real do que o amor.

domingo, fevereiro 10, 2013

A Banda Sonora da Minha Vida

Bem, não é que já tenha vivido muito para ter um titulo tão "maduro", mas a verdade é que há músicas que nos acompanham em momentos específicos da nossa vida e que se tornem difíceis de esquecer. O melhor de tudo é que todas elas definem um tempo, uma recordação, um período da nossa história e de uma época. Aqui vai a música das 25 músicas mais importantes que me acompanham neste 25 anos! (Sem nenhuma ordem em particular)... e convém dizer que foi uma escolha bastante difícil, uma vez que poderiam haver muitas mais músicas para referir.

1) LAMBADA, Kaoma - Lembro-me de dançar isto vezes e vezes sem fim quando ainda tinha uns 3 anos de idade. Ainda me lembro também de uma cassete HVS gravada comigo a dançar na sala, só pelo prazer de ver o meu vestido a rodar imenso. Lembro-me também de uma fotografia do meu baptizado com a minha ,mãe a dançar com um dos meus tios, esta mesma música. Ainda hoje guardo outra cassete com aulas que ensinavam a dançar a Lambada, e com um concerto dos Kaoma que via, sempre que podia.


2) LA ISLA BONITA, Madona - Nessa mesma cassete dos Kaoma, estava um concerto da Madona que via também do inicio ao fim e cuja música Isla Bonita me deixava completamente eufórica. Adorava todo o espectáculo dado pela Madona naquela altura e basicamente foi o primeiro concerto a que assisti antes de realmente ir a um.


3) SIMPLY THE BEST, Tina Turner - Fica difícil esquecer aquelas pernas daquela mulher tão forte e com personalidade para dar e vender, principalmente através da música. Mais um dos concertos que estavam na cassete maravilha, que, como podem calcular, tocava do início ao fim lá em casa. Basicamente era a minha televisão por cabo, sempre em três canais!


4) BORN TO RUN, Bruce Springsteen - Ainda hoje a voz deste senhor arrepia-me. Tirando o facto de ser a voz mais rouca e mais sexy que já ouvi, esta música leva-te a viajar para tempos em que passeava por Portugal inteiro ao som das cassetes (7 no total) que o meu pai trazia no carro e que tocavam, uma atrás da outra, todas do Bruce. Por isso mesmo, esta e outras músicas deste cantor estão associadas a essas viagens pelo nosso país e a histórias da infância do meu pai, que sempre contava nessas viagens


5) I WOULD DO ANYTHING FOR LOVE, Meatloaf - Esta música está muito ligada ao próprio clip. Lembro-me de ter uns 4 ou 5 anos e ver este clip e pensar numa versão mais realista da Bela e o Monstro que era, nada mais, nada menos, o meu clássico da Disney favorito, por isso, esta música tornou-se uma referência para a minha infância.


6) MANIAC, Michael Sembello - Como sempre gostei de dançar (graças à Lambada), esta música deixava-me eufórica por causa do seu ritmo frenético. Todo o clip fazia-me sonhar com um estúdio de dança que ambicionava ter.


7) CRAZY, Aerosmith - Esta era uma música que hoje considero ter sido um espelho do meu lado mais rebelde e mais independente. O clip das raparigas que fugiam da escola e passavam dias fora de casa a fazer coisas loucas, acompanhou-me como uma janela para uma característica psicológica que naquele momento vivia dentro de mim.


8) ALWAYS, Bon Jovi - E quem não se lembra daquela história de amor que faz enlouquecer ao ponto de se pregar fogo a um apartamento? Bom, esta é a imagem que ainda hoje me ressalta desta música mas que, naquela altura, não passava de achar espectacular algum dia poder viver uma história tão forte para poder ter esta música como pano de fundo (e sem explosões de preferência)!


9) WANNABE, Spice Girls - Podem gozar à vontade, mas quem é da geração de 80 e não tem uma música das spice girls ou dos backstreet boys como banda sonora, está a mentir. Palavras para quê? Foi uma música que simplesmente marcou a minha vida, uma geração e uma reviravolta na própria música. Ah e já agora, eu era a Mel C (hahahahaha)


10) EVERYBORY, Backstreet Boys - Nos tempos de escola, lembro-me de ir para as salas de aula, de forma sorrateira, com algumas colegas, ensaiar coreografias para esta música, para uma apresentação numa festa ou simplesmente para passarmos o tempo. Tornou-se um pouco o símbolo da nossa rebeldia dos tempos de escola.


11) I MISS YOU LIKE CRAZY, The Moffatts - Já que estamos a falar de boysbands, não podia faltar uma referência a uma das bandas com 4 meninos (irmãos) que deixava completamente doida. Ora, este era um caso em que não interessava a música, mas sim o físico e lá está, já se estava a desfazer aquela inocência de menina. Era a fase aparvalhada do início da adolescência.


12) I'M AN ENGLISH MAN IN NEWYORK, Sting - Por volta dos 12 anos tive um sonho com Nova Iorque que me fez ficar completamente apanhada por esta cidade, por isso, tudo aquilo que tinha a ver com ela, eu queria ter, ouvir, ler, ver... e foi então que esta música se tornou na banda sonora de uma parte específica da minha vida e sinónimo do meu sonho em visitar esta cidade. Não sei se era por causa do clip, mas ouvi sempre esta música no inverno.


13) OVER MY SHOULDER, Mike and the Mechanics - Ainda hoje não sei explicar o que me sempre atraio nesta música. Hoje sei que é a letra, mas quando era miúda aquele ritmo da guitarra e o clip, mexiam muito comigo. Ao longo dos ano fui esquecendo-a, mas voltou-se a tornar numa referência musical da minha vida, num momento específico. Recordo-me agora que foi ao som desta música que comecei a escrever, talvez por isso seja tão importante para mim.

14) WIND OF CHANGE, Scorpions - E esta música ainda hoje me deixa arrepiada e com uma lágrima ao canto do olho e tudo por causa do maldito assobio! Também se tornou uma música da minha adolescência  quando passava horas em casa de amigas a fazer trabalhos de grupo ou simplesmente a desabafar.


15) EVERYTHING I DO, Bryan Adams - Será completamente injusto escolher apenas uma música desta artista, uma vez que todas elas são importantes para mim, mas esta música tornou-me mesmo um marco do melhor verão de todos os tempos em Argozelo, em 2001, quando fui mordoma pela primeira vez. Muitas referências para não esquecer e hoje, muitas histórias para recordar ao som do meu BA.


16) JURA, Tó Semedo - Esta foi a primeira música de kizomba que ouvi e foi o inicio da febre desta género na escola. Hoje associo esta música às viagens à Serra da Estrela e a Vila Nova de Mil Fontes com os colegas de escola. Grandes momentos.


17) HERO, ENRIQUE IGLESIAS - Ai esta música, já quase nem me lembrava dela. Novamente associada à minha paixão pela dança, associada ao verão e associada a Argozelo, pelo frenesim de música espanhola que aqui se encontra. Mais uma referência da minha adolescência.


18) COSE DELLA VITA, Eros Ramazzotti & Tina Turner - Hoje entendo melhor esta música mas na altura em que a ouvi a primeira vez, simplesmente ficou gravada cá dentro pela estranheza de ouvir cantar em Italiano. Hoje acredito que, tal como muita coisa na nossa vida, foi um sinal que algum dia o italiano pudesse fazer parte da minha vida.


19) RUNAWAY, The Coors - Também todas as música desta banda me fazem lembrar as longas horas de viagem até Argozelo, sempre a cantar. Mas mais do que isso, esta música tornou-se um símbolo do meu desejo de conhecer um pouco mais do mundo. Tal como o titulo, era uma forma de fugir e pelo menos sonhar com algo diferente. E agora é impossível ouvir estas músicas e não me lembrar de paisagens magnificas da Escócia, o que se poderia tornar numa bela fonte de inspiração para um livro.


20) THAT DON'T IMPRESS ME MUCH, Shanaia Twain - Basicamente tinha um desejo de ser igual a esta mulher (hahaha). Além de uma referência musical na minha vida, em diversos momentos bem distintos, basicamente esta cantora country fazia-me acreditar que podia ser uma pessoa determinada e forte como ela, visto ser esta a imagem que tinha. Músicas de cantorias em casa, com os peluches como plateia.


21) HOTEL CALIFÓRNIA, Eagles - Esta música também tem aparecido e desaparecido ao longo da minha vida, mas parece sempre aparecer no momento certo ou inesperado como muitas situações. Faz-me lembrar as relíquias discográficas do meu pai e cujo disco teimava colocar todas as manhãs, aos fins de semana.



22) WISH YOU WHERE HERE, Pink Floyd - Não se deve, de todo, associar músicas a pessoa e esta é uma delas. Também esta música faz parte da minha infância, da minha juventude e agora da minha memória mas associada a alguém especial que, da mesma maneira que chegou, partiu. Curioso é a história por detrás desta música que, por agora, fica por minha conta.



23) LOVE BITES, Def Leppard - Confesso que ainda hoje não consigo ouvir esta música em lado nenhum. Foi realmente bastante marcante, de um período muito feliz e que também me leva ao tempo dos clips rebeldes da minha infância. Sem dúvida, uma cicatriz que ficou e permanecerá na minha vida.


24) JANIE'S GOT A GUN, Aerosmith - Esta tem sido a música que me tem acompanhado nas infernais viagens até Lisboa, para me fazer esquecer dos cromos do autocarro e para impedir qualquer contacto com a pessoa do lado. Talvez seja um reflexo do meu lado mais frio e de uma nova fase da minha vida.


25) PASSOU POR MIM E SORRIU, Deolinda - Esta música traz uma mistura de sentimentos e de recordações, desde a festa do avante, ao concerto de verão em Carção e algumas saudades de Lisboa. Basicamente é uma parte de mim, como todas as outras músicas.


domingo, novembro 04, 2012

O poder das sensações

É incrível como um pequeno gesto, um pequeno olhar ou um simples cheiro nos pode transportar para tempos, momentos ou locais tão distantes quanto a nossa imaginação... e tudo porque os nossos sentidos estão tão apurados, ao ponto de nem sempre nos darmos conta do como as coisas mais simples nos tornam tão únicos! Temos ainda a capacidade de viajar para mundos imaginários e ter coisas que jamais veríamos ou sentiríamos se não tivéssemos estes sentidos todos em nós.
Hoje dei por mim a acordar para um mundo já há muito distanciado e adormecido, embora não esquecido. Ao colocar um produto do chamado "Pronto" para limpar o pó, voltei atrás no tempo, para os dias em que era ainda uma criança e aquele mesmo cheiro existia. Tempos em que passava horas enfiada no interior da estação dos correios do meu tio, a ajudar a limpar o pó ou a arrumar cartas naquelas prateleiras enormes de madeira escura que pareciam não terminar. O que não podia faltar nesses dias era o carimbo diário que o meu tio teimava em por-me nas costas da mão e apenas isso bastava para a tarde ter valido a pena. Como era bom viver feliz com pouco.
A pior coisa que há é a música, principalmente quando associada a um determinado momento ou - pior ainda - a uma determinada pessoa. Aí sim, a lembrança pode até magoar, mas sem duvida que a audição faz com que o nosso cérebro active recordações mais fortes e de forma mais rápida que todas as outras - talvez por isso o odeie tanto! Bom, nem tudo é mau no que toca a esta situação, uma vez que nos pode levar para momentos da nossa infância em que éramos felizes a ouvir algo como as spice girls ou imitá-las nas actuações da escola!
São viagens no tempo sem fim, quer seja provocado por um cheiro que já há muito ficou esquecido na memória, quer seja por um paladar de uma comida especial apreciada na companhia de alguém que já não está connosco e cujo prato era feito num momento igualmente único, quer seja de um objecto oferecido numa altura marcante da nossa vida, que deixa um pingo de saudade dentro de nós de forma intemporária, ou ao encontrar uma pessoa que há muito não víamos  São estas coisas que nos tornam mais do que carne e osso, mais do que seres que apenas vivem e morrem, mais do que nós próprios! Sentidos, sentimentos e memórias que fazem e farão parte de nós.

sexta-feira, agosto 03, 2012

Tanto e tão pouco

Depois de uma despedida de Lisboa quase à pressa para aproveitar uma boleia para voltar para a terrinha, ficou difícil voltar a ter tempo para me dedicar um pouco a este espaço e à escrita. A verdade é que sinto que deixei para trás uma vida para poder começar uma coisa nova. Dos poucos amigos que deixei, fica a saudade de bons momentos; dos que perdi, fica a vontade de esquecer e de todos os momentos que mudaram a minha vida, fica a esperança de que tudo irá correr bem. A verdade é só uma e essa permanecerá só comigo. Sinto que a cada dia cresço, aprendo e me torno alguém diferente. Que algo neste lugar me agarra com toda a força mas estaria a mentir se dissesse que tudo ficou para trás, porque muita coisa veio comigo.


Sim, contento-me com pouco, com a simplicidade das coisas e da própria vida. Prefiro um sorriso de bons dias a uma prenda material, prefiro um pôr do sol com um desfiladeiro à minha frente, a uma cidade encantada, prefiro uma noite de céu estrelado a um manto escuro sobre mim. Prefiro apenas ser feliz com coisas pequenas e cada vez mais dou por mim a dar valor a pequenas coisas mas que, por mais pequenas que sejam, são suficientes. Está na hora de deixar o tempo correr e não correr atrás dele. Está na hora de começar algo construído por mim. Por isso, não estranhem a minha ausência ou falta de tempo, porque terei sempre tempo para desabafar ou contar algo, mas o principal vai ser aproveitar o tempo para ser feliz!

terça-feira, julho 03, 2012

O Beijo

Aqui fica mais um texto escrito há uns anos atrás...



Bastou um mero olhar para entender que as coisas estavam diferentes. Observava a maneira como as tuas mãos me acariciavam o cabelo, até chegar ao meu pescoço, acabando por me acariciar o rosto. Olhavas-me nos olhos como se procurasses o resto de mim e conseguisses ver-me verdadeiramente, como se não passassem de um mero espelho para a minha alma e a minha verdadeira pessoa.

Apesar destas paredes claras parecerem sombrias e de apenas a luz invasiva da rua nos iluminar neste corredor desguarnecido de qualquer adorno, pareço conseguir ver-te na perfeição. O brilho dos teus olhos escuros fazem-me entender que nada mais será necessário para saber o que sentes. E a tua imagem parece única, aqui, à minha frente, deixando-me sem saber se serás real ou um mero sonho onde te tenho.

Os teus dedos percorrem os meus lábios, que se abrem lentamente, obedecendo à passagem do teu dedo polegar, cujo movimento é acompanhado pelos teus olhos, enquanto os meus ainda observam a expressão de curiosidade existente no teu rosto, que me parece mais puro do que sempre foi. Acabas largando o meu lábio como se o quisesses levar contigo, enquanto a tua outra mão me aprisiona o pescoço, como se tivesses medo que pudesse escapar.

Lá fora os carros passam, os fumos da cidade desvanecessem e as luzes de néon fazem sinais sem fim para nos obrigar a olhar para elas, mas neste momento apenas nós existimos, dentro destas quatro paredes. Ambos sabemos o que vai acontecer, ambos sabemos que queremos o mesmo, mas o medo de errar começa a nascer e os nossos corações batem de uma maneira especial, absorvendo tudo, tal como os nossos olhos, as nossas mãos e as nossas bocas irão absorver caso esta proximidade continue, a qual sabemos que não queremos que termine.

Como por assalto, voltas a olhar-me. Não sorris mas o brilho dos teus olhos não me negou esse sorriso e essa confiança para avançar, em fechar lentamente os olhos como que obedecendo a ordens que de forma desconhecida chegavam, as quais tu também seguias. Enquanto isso, sentia a tua respiração profunda cada vez mais próxima, enquanto a tua mão se afogava nos meus cabelos e a outra se aproximava mais e mais das minhas ancas. Sem pensar duas vezes, acabei por fazer o mesmo, mas com a diferença de que me sentia desfalecer ao teu toque, sentindo-me segura por saber que me tinhas nos teus braços.

E foi então que senti os teus lábios tocarem os meus… e eu deixava que eles me invadissem pouco a pouco, envolvendo-se tal como nós, abrindo-se ao desejo de ambos, em conjunto, acabando por humedecer a minha boca, que momentos antes parecia ter ficado seca. Os nossos olhos permanecem fechados, mas parecendo que corremos juntos um caminho conhecido, longe daquela cidade movimentada, onde apenas nós voltávamos a existir. E agora apenas o som dos nossos corações se fazem ouvir, abafando tudo o que nos possa envolver.

Aproximamos-nos como que com medo de fugirmos um do outro, explorando cada canto dos nossos lábios, trocando sensações que não poderemos descrever, que nos fazem entender o que ambos queremos. As nossas mãos acabam por se movimentar lentamente, como que explorando um pouco do nosso corpo, tal como as nossas bocas ofegantes se conhecem e envolvem numa lenta dança de sedução, que nos faz sentir livres daquilo que algum dia fomos ou chegaremos a ser. Sem avisos, sem pensamentos prévios, sem intenções premeditavas, sentimos mais e mais uma paixão desconhecida que nos invade, aquecendo o sangue que nos corre nas veias.

Como que lendo os sinais de cada um, abrimos lentamente os olhos, sem nos afastar-mos, confirmando o que ambos sentimos, fechando os olhos duma forma ainda mais rápido do que aquela que os abrimos ou do que estes beijos, que se desenvolvem numa intimidade infinita. Agora respiramos o mesmo ar, sentimos as mesmas batidas, sentimos o mesmo toque, sem, neste momento não sabermos mais do que o que sentimos. Não sabemos quando isto terminará, mas lá fora o dia ainda mal acordou para nos observar neste remoto momento, onde a cidade foi esquecida e os sentimentos gritaram ao mundo.

Ana de Quina F.

sexta-feira, junho 15, 2012

A imagem do real

Uma vez o meu professor de Cinema disse algo que na altura me chocou um pouco. Pensar que alguém podia ser tão frio em relação aos sentimentos... Fiquei seriamente a pensar naquela frase durante uns tempos e depois de reflectir um pouco, dei por mim a dar-lhe razão naquela forma de  pensar e ver a realidade. A frase foi, mais o menos, a seguinte: "Ninguém ama realmente algo ou alguém, ama sim a imagem que tem dessa coisa ou de uma pessoa, ama aquilo que ela representa, não aquilo que é!". A verdade é que nós, seres humanos, vivemos muito de imagens, por isso é que a publicidade nos chama a atenção e por isso é que alguém nos chama a mesma atenção, primeiramente, pela sua aparência física e só depois por aquilo que nos mostra ser. Quantas vezes olhamos para alguém realmente deslumbrante e que nos desilude no momento em que abre a boca e quantas vezes achamos alguém desinteressante e depois mudamos de ideias ao fim de uma conversa? Os nossos olhos são o passaporte para o resto dos sentidos, no que toca às imagens.

Dei por mim então a pensar na realidade daquela afirmação brutal que, rapidamente, considerei genial. Quantas vezes pensamos em alguém que fez parte da nossa vida e quando a voltamos a encontrar, passado tanto tempo, deixa de ser aquilo que estávamos à espera? Isto porque gostávamos da imagem que ficou connosco daquela pessoa e guardamos na nossa memória... e de repente essa imagem é deformada, é desconstruída para se criar uma totalmente nova, completamente diferente da anterior. É esse o poder da imagem, a desconstrução de algo que nos parece uma coisa aos nossos olhos e que, pela vista de outro alguém, torna-se totalmente diferente. É esta a magia do cinema e dos sentimentos... Momentos de desconstrução sem fim!

Ainda hoje, ao pensar nestas palavras, ainda fico a pensar se poderei ou não dar razão a esta afirmação, deixando-me a pensar horas a fio, como que se tratando de um enigma. Ás vezes penso se não me terei tornado demasiado fria por acabar por pensar assim, mas ao ouvir a frase inicial da música de Jorge Dexler - Eco, alguma coisa mudou dentro de mim. "Esto que estás oyendo ya no soy yo, es el eco, del eco, del eco de un sentimiento...". Tudo é um eco daquilo que queremos ver, daquilo que queremos sentir e da imagem que tudo isso nos pode dar, "...Sutil, quizás, tan real como una fragancia: un brevísimo lapso de estado de gracia." e nada mais do que isso! Espero ao menos ter-vos deixado a pensar, tal como eu fiquei. Deixo-vos então esta música linda para este fim de noite e que, inesperadamente, me acabou com algumas dúvidas.



segunda-feira, maio 07, 2012

Pudesse parar o tempo...

Pudesse parar o tempo por um momento,
como um postal colorido, de uma paisagem longínqua,
poder ir onde não fui, sair de onde estou.

Pudesse andar por entre multidões,
observando cada pormenor daquilo que somos
e daquilo que queremos ser perante os outros,
sem julgar, simplesmente analisando.

Pudesse o tempo levar a saudade,
afastando-a sem me dar conta,
deixando-me apenas respirar,
como mais um bafo perdido no nevoeiro.

Pudesse desviar-me das gotas da chuva suspensas no ar,
afasta-las como cortinas 
ou uni-las
criando uma imagem suspensa,
que um dia imaginei e nunca cheguei a desenhar.

Pudesse mudar um passado e correr para um futuro,
fugindo um pouco do presente,
evitando surpresas,
entendendo o que ficou por fazer.


Pudesse saltar sem medo de me magoar,
desviar obstáculos com um simples sopro,
e ir buscar aquilo que ainda me faz falta
a um lugar incerto, onde ainda não cheguei.

Pudesse o mundo parar de girar,
a noite roubar para sempre o sol,
e acender velas a cada passo dado
para a iluminar.

Pudesse um beijo ser dado com o olhar,
sem medo de ver a verdade,
sentindo arrepios depois disso,
mesmo de olhos fechados.

Pudesse o tempo parar-me a mim,
dar-me um momento de descanso,
para deixar de ser eu, passando a nada ser
apagando os meus pensamentos,
coisa que nem isso consigo parar...

Pudesse a vida sorrir para mim,
com pouco, com sentimento,
dando-me segurança para a viver,
para o tempo parar não desejar!

Ana de Quina F.

quinta-feira, abril 19, 2012

A Sombra dos Corpos


    A porta entreaberta deixa sair um rasto de luz que me mostra o caminho até ti. O chão ganha tonalidades que nunca antes tinha reparado, as paredes ganham sombras de objectos expostos, agora que a luz as começa a tocar. Eu fico indecisa, sem saber se devo entrar ou simplesmente esperar aqui por ti mas a vontade de te ter perto é maior do que esta luz que começa a brilhar pela manhã. Caminho descalça, tentando não fazer um único ruído para não dares pela minha presença. Atrás de mim apenas fica este corredor vazio e mal iluminado, com pequenas poeiras do pó a subirem depois das minhas pegadas.

    Abro a porta com um gesto suave da mão, como se fosse à descoberta de um tesouro e espreitasse para dentro de algo à procura de alguma coisa perdida no tempo. Sigo o movimento dela e olho então a janela mal fechada que deixa entrar os primeiros raios de sol. A roupa no chão, a secretária cheia de livros e papéis soltos, o rádio ligado a piscar para voltar a tocar a música que há muito terminou, uma fotografia da tua infância, um espelho que mostra o meu reflexo curioso, juntamente com o teu corpo estendido em cima da cama, completamente esticado de barriga para baixo com um braço debaixo da almofada, enquanto o outro se estende por debaixo do lençol que apenas te tapa da cintura para baixo.

    Entro e afasto tudo aquilo que me impeça chegar até ti. Aproximo-me, mas não o suficiente para me sentires chegar perto de ti porque não te quero acordar. Olho-te e sorrio ao ver o teu rosto adormecido e esse corpo suave e selvagem, agora tão quieto como uma estátua. Ganho coragem e, aos poucos, vou-me aproximando. Afasto o cabelo da tua cara e contemplo o rosto divino, essas feições joviais com a barba por fazer, tornando-te mais homem mas igualmente uma criança adormecida. Afasto-me e sento-me na cadeira em frente à secretária.


     Escrevo e contemplo-te. O corpo iluminado pela luz que invade este quarto, criando uma sombra na parede, reflectindo aquilo que não és mas aparentas ser. O teu corpo gracioso ganha mais cor e novos tons contrastam com o encanto do teu ser. Ninguém diria que, por trás deste corpo angelical está uma mente rebelde e um espírito selvagem… E as minhas atenções voltam-se para o teu rosto, onde os teus lábios semi-abertos parecem chamar por mim. Lábios que, sempre que podem, sussurram palavras soltas ao meu ouvido e me transportam para um mundo de prazer e arrepios, guiados por um puro sentimento de adoração e divindade.

  Olho para a secretária e no meio dos papéis sem fim encontro uma fotografia nossa: um beijo dado ao luar de uma noite de verão. A vontade de querer gravar este momento para sempre cresce dentro de mim e ainda mais a vontade de parar o tempo para te poder ver sempre assim, desta forma divina. É então que acordas, enquanto pouso a fotografia e te sorrio. Ficas surpreso com a minha presença mas sem perder tempo sorris e levantas o lençol que te tapa, convidando-me a entrar no teu ninho aconchegante, como se nunca de lá devesse ter saído.

    Antes de te fazer a vontade, fecho mais a janela, sem a fechar totalmente, entrando uma claridade menos forte mas que, ainda assim, cria sombras da nossa presença. Sem pudor e concentrando-me no teu olhar mal acordado que me fita sem pestanejar, vou-me despindo, peça a peça, calmamente, sem pressa, saboreando o movimento do teu olhar que segue cada gesto, aumentado o teu desejo por este corpo que igualmente deseja o teu. Dispo-me, pensando que és tu que o fazes, pensando como o mundo lá fora é tão pequeno neste quarto e como tudo se resume a ti.


   Uma lágrima corre pelo canto dos meus olhos e tu não perdes tempo em ficar à minha espera. Vens até mim, aconchegando-me nos teus braços, comovido com o gesto, completamente entregue ao meu corpo. Levas-me nos teus braços para debaixo dos lençóis, juntando-te a mim, abraçando-me e beijando-me como se não houvesse futuro ou simplesmente como se nada mais importasse. As nossas sombras transformam-se, ficam cada vez mais juntas, como nós, acabando por se tornar apenas numa pequena sombra, onde a escuridão do prazer a completa.



Ana de Quina F.

quarta-feira, abril 11, 2012

Um ano depois...

Há precisamente um ano atrás este dia tornou-se o pior de sempre e, de repente, aquilo que era tido como garantido foi perdido, a felicidade que havia tornou-se num lamento sem fim, o chão tornou-se num poço sem fundo onde me encontrei a cair em queda livre e tudo aquilo que sentia ter de bom dentro de mim parecia ter sido roubado para sempre. Nessa altura não acreditei que algum dia pudesse sair desse estado miserável em que, inesperadamente, me encontrei e as lágrimas pareciam ser a única coisa que me consolavam. Por muito que me dissessem que tudo ia correr bem e passar, naquele momento a vida parecia ter acabado. O sentimento de culpa remoía dentro de mim, os "porquês" não queriam desaparecer e tudo o que foi bom no passado, tornava-se uma mentira aos meus olhos. As noites tornavam-se longas e dolorosas e as manhãs pareciam nunca mais acabar... e cada sorriso dos que estavam bem pareciam-me facadas a trespassar o coração!

Foi preciso muito tempo para sair deste estado e agora entendo que, às vezes, é preciso apanharmos grandes desilusões para percebermos quem realmente merece fazer parte da nossa história e da nossa vida, que merece o titulo ou o estatuto de amigo e com quem realmente estamos a perder tempo e podemos dispensar da nossa vida... e aos poucos, vamos seleccionando, vamos apoiando-nos em quem realmente nos quer ver feliz e lentamente a luz ao fundo do túnel vai aparecendo. Aos poucos a nossa alma vai-se recompondo e começamos a olhar para nós de uma forma única e especial, percebendo por fim que a única pessoa que jamais nos poderá magoar ou desiludir, somos nós próprios!

A dúvida de conseguir sair desse estado vai desvanecendo, até nos apercebermos que é possível sair dele e voltar a sentir o que antes nos foi roubado: felicidade e capacidade de amar... mas agora não basta amar aquilo que queremos mas sim aquilo que merecemos para nós! É então que vamos agarrando novas oportunidades, lembramos e ganhamos vontade de esquecer o passado e viver o presente com mais e mais intensidade, apaziguando a dor de ainda, em alguns momentos, olhar para trás. O tempo não pára e jamais teria pensado que, um ano depois, conseguisse ou pudesse sequer respirar fundo e absorver o que me rodeia com um sorriso, agradecendo quem escolhi ter do meu lado e ter aprendido que afinal sou mesmo mais forte do que esperava!

quarta-feira, março 07, 2012

Momentos de Inspiração


Uma das coisas que mais me inspira é a música, nomeadamente baladas e claro, seria impossível não referir Bryan Adams que ainda hoje sabe usar as palavras certas para chegar ao mais profundo de nós. Aqui fica um texto antigo, inspirado numa das suas músicas e claro está, em Argozelo! Para os que tiverem um pouco mais de sensibilidade, aconselho a ler este texto ao mesmo tempo que ouve a música e pode ser que se sintam mais próximos de viver este momento descrito na vossa imaginação...

Vi-te descer, ao fundo, a rua, imaginando-te que vinhas na minha direcção, mesmo sem saberes. Caminhavas como um anjo, como que arrastando o pés pelo ar, como se cada passo fosse algo divino. Apenas eu te poderia apreciar da maneira que o fazia. O teu corpo transbordava de sedução, e o teu olhar era incapaz de o negar. Aproximavas-te lentamente, como se fosses ao encontro de algo igualmente divino, enquanto eu te via duma varanda, pedindo em silencio que me olhasses. Quando o fizeste não acreditei.
Vi-te sorrir, algo que transformou aquela divindade num pecado. Retribui, contribuindo para a desgraça dos homens, tornando a terra num inferno criado por nós. Este jogo apenas começara. Soletras-te umas palavras silenciosas, que confesso que não entendi, mas cada movimento dos teus lábios, pareciam cada vez mais perto de me tocarem. As ruas estavam desertas, apenas um carro passava de vez em quando. O céu escurecia e a chuva parecia querer acompanhar-nos neste jogo de olhares, sorrisos e palavras silenciosas, como um acto terrorista.
Descaradamente, sem medo do incerto, sai da varanda, desci as escadas, e apenas parei ao pé da porta onde tu não me esperavas encontrar. Arranjaste a tua camisa, num gesto ofegante e ansioso. A minha saia até aos pés, era levada pelo vento, apenas descobrindo-me os pés. Olhavas-me de alto a baixo como se o anjo agora fosse eu, mas acredito que me virias mais como um pecado, do que como algo divino. Eu tinha a certeza que eras um pecado na minha vida.
Aproximaste-te, com passos incertos, olhando para ambos os lados daquela rua deserta, procurando aquilo que já tinhas encontrado. Os teus olhos pareciam cada vez mais hipnotizados. Olhavas para um vazio dentro dos meus olhos, e eu, de igual modo, não conseguia ver nada nos teus olhos. Estendes-te a mão, com medo que eu desaparecesse, sem tu antes teres esse prazer. Lentamente passaste-me a mão pelo rosto, enquanto eu te olhava, focada em algo irreal, agora que os teus olhos seguiam as tuas mãos. Paras-te quando encontras-te a minha mão, que bruscamente apertei, tornando aquele pecado cada vez maior.

Os nossos olhos cada vez mais juntos, mas a tua atenção focou-se nos meus lábios, que lentamente se abriam, como se obedecessem a uma ordem tua, como que imitando os teus lábios que também se começavam a abrir. Quando ambos os lábios se tocaram, pequenas gotas de chuva começaram a cair, como se o mundo divino chorasse. Os nossos olhos tornaram-se janelas fechadas para o mundo, completamente abertas para o nosso interior. As nossas bocas ficavam cada vez mais juntas, e mais ofegantes, como se o beijo fosse algo desconhecido de ambos. Lentamente, pouco a pouco, os beijos intensificaram-se, e como numa coreografia, todo o teu corpo se movia, tocando-me nas costas, no cabelo, como querendo sentir tudo de uma só vez. Como um belo pecado, aproximei mais a tua cabeça, junto á minha, e cada vez mais as nossas bocas pareciam uma só.
A chuva teimava em cair e nós teimávamos em continuar aquele beijo pecador. Poderíamos ouvir a chuva, a água que começava a correr pela rua fora, os poucos carros que passavam e apitavam, isto, caso deixássemo-nos de beijar, mas não deixamos. Apesar das gotas serem cada vez mais, e mais pesadas, e frias, os nossos corpos permaneciam quentes. E incapazes de se separarem, apesar de apenas estarem ligados por um beijo.
Como uma trovoada, ou um bom pecado, deixei-te abruptamente, sussurrando algo no teu ouvido, como um murmúrio dos infernos, e sorrindo misticamente. Comecei a correr dali, como se levasse comigo a tua alma, que agora não a poderias reaver e tu nada fizeste por isso.

terça-feira, fevereiro 14, 2012

Amar...

As cantaroladas da minha amiga Vanessa fizeram-me lembrar um texto que escrevi há algum tempo atrás e tendo em conta que hoje só há casais felizes na rua, fiquem com uma pequena amostra de algo que um dia eu chamei AMAR.


   Eles não sabem nem sonham, como a saudade mata e destrói este coração apaixonado. Passam como fantasmas por entre esquinas de ruas e ruelas onde outrora nos amámos.

     Não podem imaginar o que é olhar o que parece vazio e ver uma imensidão de momentos vividos, já passados, mas agora relembrados por este corpo que, imóvel, olha de novo para cada um desses momentos, com vontade de viver ainda mais o que eles não vêm, mas eu senti.
O tempo passa e com eles nada será lembrado ou vivido, mas a saudade fica, apertando, obrigando-me a não esquecer aquilo que o tempo jamais apagará da minha memória. Eles poderiam até sonhar, mas nem isso sabem.
Perdidos andam, sem ver estas lágrimas que me aconchegam quando fecho os olhos e volto àquele banco daquele jardim, onde me deitei no teu colo e comecei a contar as folhas daquela árvore, com um sorriso luminoso, sem querer saber do tempo, apreciando ao máximo a felicidade de estar nos teus braços, aninhada no nosso mundo, enquanto sorrias e me protegias como uma criança.
E choro ainda mais quando vejo aquela rua apinhada de gente, de trás para a frente, sem reparar em nós, abraçados numa esquina, consolando os soluços de dor de cada um, num abraço bem apertado, com medo da hora da despedida. Chorávamos, não com medo do fim, mas com a certeza da saudade que iria permanecer nos nossos corações.
Nem eu, nem tu conseguimos conter estes sentimentos e nem assim eles foram capazes de nos ver, para saberem como o amor é feito de momentos partilhados a dois ou com quem pára para olhar e ficar a sonhar com um amor assim.
Apenas esta cidade adormece e acorda todos os dias com a certeza de que um dia, ao virar de uma esquina, no banco de um jardim, numa livraria, num teatro, num cinema, num barco, num comboio… onde passámos, o nosso amor ficou com ela e, apesar da distância, também no meu coração.