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terça-feira, fevereiro 03, 2015

Tempo roubado

Somos feitos de histórias e pequenos momentos roubados ao tempo, partículas de segundos que se vivem em dias perdidos por anos a fio. Somos pequenos pedaços do tempo e escrevemos na nossa memória tudo aquilo que vivemos: o que é bom fica, o que é mau esquecemos. Tempo que nos é roubado da mesma maneira que nos atrevemos a roubar o tempo dos outros e com ele criar as nossas próprias histórias. 

A memória não passa de um carro que nos conduz por essas mesmas histórias, por esses mesmos momentos onde esquecemos o tempo que passa sem parar. Às vezes queremos agarrá-lo, guardá-lo só para nós mas ele escapa-se-nos sempre pelos dedos e sem olhar para trás. Isso faz a memória, que vive e revive vezes sem conta um momento passado, uma fracção mínima roubada ao tempo que é infinito. 

Sorte tem o tempo que não pára e não acaba e ainda acumula histórias, histórias que ficam por contar e muitas que ficam por viver, histórias de ontem e de amanhã... e o futuro, esse, ninguém o pode roubar. Só nos resta esperar para poder viver e escrever num caderno de linhas infinitas - também ele à espera de ser estreado - aquilo que o tempo ainda tem para nos oferecer.

Ana de Quina - 2015

segunda-feira, novembro 24, 2014

Fica esta noite!

Dançaria se me pedisses, como uma pluma que esvoaça no ar. Abriria os braços e deixaria o vento levar-me até ti, para me agarrares e cuidares de mim. Correria, mas olharia para trás, para te procurar, para ter mais uma última chance de te poder ver olhar para mim. Choraria ao ver-te chorar e limparia cada lágrima do teu rosto com um beijo quente e doce, apagando a tua dor. Salvaria a tua alma, esta noite.
Tremeria ao sentir-te tocar nos meus lábios, roçando a tua pele seca junto à minha, sentido a humidade da tua boca quando me beijasses e voltaria a tremer quando me enlaçasses nos teus braços. Também riria, ao sentir tudo isto, como uma criança inocente, que gosta do que sente mas não o sabe definir. Morreria por alguém que amo, mas apenas quero que me abraces, esta noite. Fugiria contigo para qualquer parte, mas esta noite, ficamos juntos.
Prometia ser tua para sempre, sem mentiras, sem me esconder, e se um dia eu tivesse que o deixar de ser, acredita que essa promessa tinha sido verdadeira. Não estarias a ser profundo ao pedir-me que te fizesse tal promessa, e muito menos a perder a cabeça, estarias a ser tu mesmo, aquele que tentas esconder e que apenas me mostras a mim. Agora não me interessa, pois estás aqui esta noite.
Poderias ser o meu herói, afastar a minha dor e a loucura que trago e me mata por dentro, ficar do meu lado para sempre, fazendo-me ficar quase sem fôlego. E o que realmente importa, no final, é que te quero. Promete que ficas comigo esta noite, e que esta noite se torne num para sempre.

Ana de Quina - 2008

sábado, julho 05, 2014

Deus do Olimpo

Todos falam de ti, quando passas, quando não estás e até quando deixas de existir. Parece magia mas a verdade é que tu não és nada daquilo que eles pensam. Pareces não ver os milhares de rostos a saírem por entre a chuva a desejarem ser como tu. Todos caem no erro de desejar o impossível. Tu sabes tudo ou pelo menos pensas que sim. Tens o que queres, tens quem queres, mas não sabes ser feliz.

Porquê viver assim? Porquê ser assim, se não faz sentido? Apenas o desejo de se tornar em algo mais útil ou mais surreal alimenta a vida destes seres mortais que sobrevivem todos os dias e é nisso que eles acreditam, que tu os possas salvar, tornando os teus sonhos nas suas realidades.

Podem falar, podem gritar e até morrer por ti, mas tu nem estás para ai virado. Achas-te o rei, mas tremes com um pequeno trovão, choras no escuro para ninguém ver o humano que podes ser e temes os olhares daqueles que, no fundo, apenas te admiram. Tens vergonha de ser um homem, ser mortal, como todos nós. Pensas ser um deus, mas a verdade é que o sangue que te corre nas veias não é o sangue do poder divino, de algo superior. Poderias até ser feito de força, mas nem isso. És tão, ou mais, fraco que todos nós juntos, mas nunca o mostras.

Eu não sei porque eles falam de ti, sonham contigo, mas eu sei porque sonho contigo e anseio estar a teu lado. Apenas eu consigo ver esse lado humano que ninguém vê. Consigo ver o coração chorar enquanto sorris, consigo ver o teu medo quando pões um sorriso nervoso no teu rosto, consigo sentir o teu beijo sem me tocares, enquanto trocamos um olhar intenso. Apenas não sei porque todos desejam ser como tu, mas sei que eu e tu separados não seríamos quem somos, nem eles falavam de ti.


Saberemos sempre quem somos, mas os outros não sonham as diferenças que existem entre nós e mesmo assim estamos aqui, um perto do outro, pois sem mim não serias quem és e eu, sem ti, não teria ninguém para poder ser o que sou. Poderia ter sido noutros tempos, noutro lado, mas somos como unha e carne e ninguém o pode negar. Apenas quem não nos vê poderá dizer que nada disto existe, pois não passamos de mero pó das estrelas que todos os dias se desfazem aos nossos pés.

Ana de Quina F. (2009)

segunda-feira, junho 09, 2014

"Vim te salvar!"

Meti o capuz na cabeça e protegi-me do mundo. A noite estava estrelada e o vento tinha acalmado. Sai sem saber para onde ir. Pouco importava. Caminhei pela noite como um ser despido de medos e de vontades. Era apenas eu e o mundo. Naquele instante amava o desconhecido, amava o perigo e o inesperado. Caminhei sem rumo sem querer saber do tempo. Então encontrei um lugar só meu. Sentei e encostei-me ao muro. Olhei para cima e encontrei as estrelas que me acompanhavam nesta viagem noturna. Imaginava uma vida para lá daquele universo, certamente mais aconchegante.

Estava tão absorvida naqueles pequenos mundos que nem me apercebera do som dos teus passos na minha direção. Como sabias que estava ali? Como sabias? Rapidamente me estendes-te a mão e me abraças-te. Senti-me desfazer em pequenas partículas, tão minúsculas como aqueles pontinhos que brilhavam por cima de nós. "Vim te salvar!", sussuraste-me ao ouvido e, aos poucos, senti os meus olhos cobrirem-se de lágrimas. Tinha vindo procurar a solidão, tentar me encontrar no silêncio da noite, sem perceber que há muito caminhavas do meu lado, lendo cada pensamento, interpretando cada gesto e invadindo a minha alma pelo meu olhar. Tiraste-me o capuz da cabeça, obrigando-me a ouvir o bater do teu coração e agora apenas bastava a tua presença para me sentir protegida de todos os sentimentos negativos que me tinham consumido.

Os teus dedos limpavam as minhas lágrimas, enquanto o teu olhar sorria para mim. "Está tudo bem!", dizias não apenas com a tua boca mas com todo o teu corpo e eu acreditava. Acreditava porque agora te tinha diante de mim e porque confiava em ti. Tudo era inesperado, tal como aquela caminhada para fugir de uma solidão inesperada como a tua aparição para um salvamento inesperado... tal como a força que nos atraia um para o outro, juntando-nos num beijo apaixonado e meigo, onde o amor arrebatava a solidão, onde a felicidade se infiltrava em cada canto da minha tristeza, onde a noite dava lugar ao dia. Olhei-te nos olhos para ter a certeza que não era apenas um sonho que a manhã me havia roubado. "Vem comigo!", pediste sem exigir nada mais em troca, guiando-me pela tua mão e levando-me dalí, por novos caminhos. Ainda me perguntava como sabias que estava ali mas segui-te apenas ouvindo o meu coração que naquele momento descansava em paz na certeza de que apenas tinha procurado o caminho até ti.



Ana de Quina F.

terça-feira, abril 08, 2014

A princesa e o anjo negro



Ele passou sem lhe olhar. Trazia a sua capa que escondia o seu rosto e os seus segredos mais profundos. Um anjo negro que tinha entrado na sua vida como uma corrente de ar que invade a nossa alma sem aviso. Só ela sabia o peso que aquela criatura carregava no seu coracao. Amava em sofrimento mas ela amava-o em silêncio, calando aquilo que o seu peito não negava. Mesmo que ele mal a olhasse, sabia que pensava em si. Saberia ele o mesmo? 

Ela era uma princesa, um diamante demasiado precioso perdido na floresta, cujo preço ele jamais poderia pagar. Mas ele estava disposto a dar a sua vida, o seu sangue, nem que fosse apenas pelo seu sorriso. Por isso não a olhava. Não queria ver as lágrimas que ela deixava cair à sua passagem, as mesmas que lhe caiam na capa como pequenas gostas de chuva. As mesmas que ele carregava juntamente com a sua dor. 

Doía mas não desistia até a ver sorrir; nem mesmo ela desistia de o ver passar, esperando pelo dia de luta. E esse dia chegou. Do seu manto o anjo negro deixou um rasto de rosas pretas e, sem aviso, lançou uma rosa solta com um pequeno papel: quando me vires passar, sorri porque te amo!... ela chorou ainda mais mas sorriu e nesse instante os olhos daquele anjo negro olharam-na também com lágrimas e um sorriso. Ele era o fruto proibido e ela a sua verdadeira alma. Negra era apenas a sua capa e só a princesa via a verdadeira cor da sua alma, transparente, cheia de amor para dar, cheia de vida... por ela! Tudo por ela.

Ana de Quina F.