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segunda-feira, novembro 23, 2015

Sonho acordado enquanto caminho.

Caminho sem pressa, sem tempo, sem destino, sem mesmo saber qual o meu caminho. Sigo os meus passos, de um corpo que segue livremente uma mente que voa e viaja sem prisões. Piso ervas, pedras, terra e nada me parece deter. O frio apenas me acompanha e nem ele é capaz de me fazer mudar de ideias. Não penso, apenas olho e sonho com o que já foi e o que pode vir a ser.

Sonho com uma casa no campo, isolada mas acolhedora. Coisas pequenas e simples que aconchegam o coração. Sonho com cães a correr em volta do pátio e uma pequena horta mesmo ao lado, para colher aquilo que a terra me quiser oferecer. Sonho com a lenha amontoada no alpendre para nos aquecer neste inverno rigoroso e tu ao lume a preparar o jantar. Sonho com uma lareira acesa à nossa espera, tal como um chocolate quente acabado de fazer. Sonho com as paredes do nosso quarto cobertas de livros só para ti e um recanto à janela para descansares. Sonho com o passar das estações e com uma vida a dois.

Mas faltas tu. Caminho e não te encontro. Nem mesmo a penumbra te traz até mim. Caminho sem saber para onde e procuro-te. Tento-te encontrar mas há muito que partiste. E não quero olhar para trás, para aquele tempo em que sonhávamos com tudo isto. Mas sou um homem de cumprir palavra por isso vou fazer o que prometi. Vou procurar o nosso refugir, construir a nossa casa, ter os nossos cães e acender-te o lume sempre que tiveres frio. Irei dar-te um beijo enquanto cozinhas e esperar por ti para beber o chocolate quente. Vou aconchegar-te enquanto leres o teu livro favorito pela milésima vez e irei apagar a luz quando adormeceres... ou então deixo-a acesa, para não te voltar a perder.

Por agora caminho, para parte incerta, para algum lugar. Sei que me guias, sei que segues aqui do meu lado. Consigo sentir o teu respirar, o teu toque quente e ainda vejo o teu sorriso quando fecho os olhos. Sinto-te no vento a chamar por ti, sinto-te nos passos que dou para ti. Fica comigo assim, não partas mais e quando encontrar esse lugar, sei que foi o que tu escolheste... e onde antes não havia mais vida, sei que o meu coração sei vai encher de forças para erguer de novo uma vida contigo mas sem ti.

Ana de Quina - Novembro 2015

quinta-feira, setembro 24, 2015

Cidade ou campo?

Hoje li uma frase com a qual me identifiquei, acompanhada de uma imagem linda de um final de tarde, inicio de noite, que me fez parar no tempo e pensar realmente sobre esta questão. Cada vez mais sou confrontada pela típica pergunta de "como gostas de um sitio onde não há nada?" ou as constantes exclamações que me deixam completamente passada de "como é uma rapariga que nasceu numa cidade consegue gostar tanto do campo!". A resposta é simples: por tudo aquilo que o campo tem que a cidade não me dá! Quem quiser entender, vai entender... quem não quer, não vai entender. Simples.

Para muitos a vida da cidade é tudo: discotecas (que eu odeio), a "vida da noite" (que se pode ter em qualquer noite, em qualquer lugar), atividades culturais (na cidade quer dizer moda e sítios "in"), praias (tenho uma a cinco minutos de casa), trabalhos melhores (com salários de escravo), mais oportunidades (será?) e vidas espetaculares para partilhar com amigos e família (viva o facebook). Sinceramente, dispenso estas coisas na minha vida. E no que toca à tecnologia, cada vez desprezo tanto a vida na cidade como o uso das mesmas. Não, não é apenas para ser do contra, é querer ser cada vez mais verdadeira comigo e com os que me rodeiam. Até mesmo os que moram no campo sonham em ir viver para a cidade, por isso quase parece uma ofensa esta forma de pensar mas acredito que é preciso perder aquilo que temos para lhes dar valor e neste caso acredito que não estarei errada.

Se todos tivessem a oportunidade de ir passar um fim de semana para o campo, sem trabalho, sem problemas, sem tecnologias, com o mínimo indispensável, talvez conseguissem realmente encontrar aquilo que muitos tentam procurar e não encontram: nós mesmos. Para a maioria iria ser difícil deixar os pequenos vícios rotineiros para trás, mas acredito que muitos iriam voltar para esses mesmo vícios com outra perspectiva da vida, o que já por si tinha valido a pena.

Ninguém tem noção da inveja que tenho daqueles que podem sair de casa e ver as estrelas quase todas as noites. Daqueles que se podem perder por caminhos de terra no meio da natureza e ouvir a natureza chamar por nós, desde o som dos pássaros a cantar ao simples som do vento a correr por entre as folhas das árvores. Daqueles que se juntam num largo qualquer com os amigos e ficam até às tantas a conversar e a beber, sem querer saber das horas. Daqueles que vêm o entardecer a desaparecer no horizonte, atrás de montes de vários tons e que nos fazem sentir formigas neste mundo. Daqueles que conduzem em estradas que atravessam o coração da natureza e se perdem em pensamentos enquanto o fazem. Daqueles que trabalham todos os dias no campo com os amigos ou familiares, ralhando e discutindo, ficando tudo esquecido ao fim do dia com uma jantarada e um convívio genuíno. Daqueles que podem sair de casa e ir a pé para todo o lado dentro das suas terras, sem ter de depender de trânsitos e carros. Daqueles que podem correr ou ir passar de bicicleta e ir descobrir caminhos novos todos os dias. Daqueles que sobem aos telhados ou aos montes mais altos pela madrugada para ver o nascer do sol antes de começar o dia. Daqueles que vivem em casas modestas e típicas, cheias de histórias e tradições. Daqueles que vivem das estações e daquilo que a terra lhes dá. Daqueles que vivem a cuidar de animais e passam mais tempo com eles do que com as pessoas...

"Pessoas da cidade não entendem o que é estar apaixonado pelo campo", a não ser que já o tenham experimentado. E sim, faz falta não ter nada, faz falta sermos apenas nós próprios, faz falta viver com menos e ter mais doutras coisas, faz falta aproveitar melhor o nosso tão curto tempo, faz falta ser simples e amar as coisas simples que a vida tem para nos dar. Só assim podemos ser completos, únicos e autênticos. O campo sempre foi a minha segunda casa e cada vez mais quero que seja a primeira, para desagrado de alguns, mas sei que apenas ali posso ser eu, odiada por muitos, amada por outros, mas EU. Apenas quero ser feliz onde me sinto bem e não é a cidade que me dá esse sentimento. Costuma-se dizer que a nossa casa é onde está o nosso coração e o nosso amor, e não podia estar mais de acordo.

Ainda não há muito tempo fui confrontada com um pensamento errado, como se me tivesse virado para o campo para fugir a uma outra realidade, mas olhando para trás e continuando a acreditar na minha máxima de que nada acontece por acaso, a verdade é que sempre desejei fazer a minha vida fora de onde a fiz, sempre quis que a minha segunda casa fosse a primeira e agora que não tinha mais prisões na cidade, porque não aproveitar e arriscar? porque não ir atrás de um sonho? porque não perseguir uma vontade tão grande? Era o agora ou nunca e fui com tudo, para onde o meu coração desejava estar. Parece bonito, mas a vida é mais difícil do que esperamos, principalmente quando nos rodeamos de gente que não entende porque escolhemos uma vida de felicidade a uma vida de conforto, uma vida simples a uma vida de luxo, uma vida calma a uma vida estressante... são escolhas e esta é a minha, gostem ou não!

Aquilo que era para apenas ser uma reflexão, acabou por se tornar um desabafo pessoal, talvez porque assim teve de ser, talvez por não conseguir gritar ao mundo aquilo que trago no coração e como me irrita viver uma vida igual a todos os outros, imposta por uma sociedade cheia de "certos e errados" e de pensamentos formatados... quero sim ser livre, ir atrás dos meus sonhos, ir atrás daquilo que sei que posso ser e ainda assim não precisar de ser burra ou perder qualidades como muitos julgam. A estupidez depende da nossa vontade de o ser ou não. E estupido é aquele que acha que por nascer na cidade é mais inteligente do que os que nascem no campo... cada um com as suas qualidades e os seus defeitos, cada um com os seus conhecimentos e cada um com o seu destino... o meu é apaixonar-me todas as manhã pela vida, como os gatos que olham para tudo como se fosse a primeira vez e escrever tudo aquilo que não tenho coragem de dizer. Poucos saberão o prazer de estar no meio da natureza com um caderno e uma caneta e deixar-se perder em palavras e pensamentos, enquanto o tempo passa, sem pressa, sem compromissos, sem nos tirar nada que tanto temos medo de perder... o prazer de abrir uma janela e ver paisagem em vez de um amontoado de betão.

Espero que agora possam entender esse meu gosto e essa minha paixão. Já há muito que deixei de querer mudar o mundo, mas sei que se mudar o meu posso ser alguém melhor e fazer os que estão do meu lado pessoas melhores. E do que serve a vida se não for para sermos felizes? Do que serve a vida se não for para fazermos aquilo que gostamos? Do que serve a vida se não for para sermos pessoas melhores? Do que serve a vida se não for para traçarmos o nosso próprio caminho? Deixem-me ser livre como nunca fui antes de fazer as minhas escolhas e viver a vida que sempre quis, no campo!

domingo, setembro 06, 2015

Alguma vez...

Alguma vez amaste com medo de errar?
Alguma vez te deixaste apaixonar?
Alguma vez conseguiste mandar nos teus sentimentos?
Alguma vez te entregas-te de olhos fechados e deixaste o tempo andar?

Alguma vez sofreste por amor?
Alguma vez sorriste quando só te apetecia chorar?
Alguma vez sonhaste livremente?
Alguma vez caminhas-te ao luar?

Alguma vez pediste um desejo?
Alguma vez pensaste em mim?
Alguma vez roubaste um beijo?
Alguma vez esperas-te um sim?

Alguma vez te fiz sorrir?
Alguma vez te fiz Feliz?
Alguma vez falhei contigo?
Alguma vez houve algo que eu não fiz?

Alguma vez cometeste uma loucura?
Alguma vez fizeste algo que não fizeste por mais ninguém?
Alguma vez beijaste no meio da estrada deserta?
Alguma vez gritas-te o nome de alguém?


Alguma vez perdeste o sono?
Alguma vez tiveste vontade de fugir?
Alguma vez eu fui o teu sonho?
Alguma vez me deixavas partir?

Alguma vez houve um abraço que te acalmou?
Alguma vez disseste o que não querias?
Alguma vez te deram um beijo na testa?
Alguma vez alguém curou as tuas feridas?

Alguma vez amaste de mais?
Alguma vez roubaram-te o coração?
Alguma vez pensaste em desistir?
Alguma vez foi só paixão?

Alguma vez deste a mão para te sentires seguro?
Alguma vez fizeste promessas?
Alguma vez tu foste o segundo?
Alguma vez te deram flores como essas?

Alguma vez viste o brilho de um olhar?
Alguma vez viste uma estrela cair?
Alguma vez te fartas-te de tentar? 
Alguma vez estivemos juntos a dormir?

Alguma vez brincas te com o fogo?
Alguma vez provocas-te alguém?
Alguma vez tudo foi só um jogo?
Alguma vez partiste sem dizer nada a ninguém?

Alguma vez amaste intensamente?
Ficaste sem ar ou sem chão com o fim?
Alguma vez será para sempre?
Meu amor, diz me que sim!


Ana de Quina, 2015

sábado, novembro 29, 2014

Beijo do Pecado

Vi-te descer, ao fundo, a rua, imaginando que vinhas na minha direcção, mesmo sem saberes. Caminhavas como um anjo, como se arrastasses os pés pelo ar, como se cada passo fosse algo divino. Apenas eu te poderia apreciar da maneira que o fazia. O teu corpo transbordava sedução e o teu olhar era incapaz de o negar. Aproximavas-te lentamente, como se fosses ao encontro de algo igualmente divino, enquanto eu te via de uma varanda, pedindo em silêncio que me olhasses. Quando o fizeste, não acreditei.

Vi-te sorrir, algo que transformou aquela divindade num pecado. Retribui, contribuindo para a desgraça dos homens, tornando a terra num inferno criado por nós. Este jogo apenas havia começado. Soletras-te umas palavras silenciosas, que confesso que não entendi, mas cada movimento dos teus lábios, pareciam cada vez mais perto de me tocar. As ruas estavam desertas, apenas um carro passava de vez em quando. O céu escurecia e a chuva parecia querer acompanhar-nos neste jogo de olhares, sorrisos e palavras silenciosas, como um acto terrorista.

Descaradamente, sem medo do incerto, sai da varanda, desci as escadas, e apenas parei ao pé da porta onde tu não me esperavas encontrar. Arranjaste a tua camisa, num gesto ofegante e ansioso. A minha saia até aos pés, era levada pelo vento, apenas descobrindo-me os pés. Olhavas-me de alto a baixo como se o anjo agora fosse eu, mas acredito que me virias mais como um pecado, do que como algo divino. Eu tinha a certeza que eras um pecado na minha vida.

Aproximaste-te, com passos incertos, olhando para ambos os lados daquela rua deserta, procurando aquilo que já tinhas encontrado. Os teus olhos pareciam cada vez mais hipnotizados. Olhavas para um vazio dentro dos meus olhos, e eu, de igual modo, não conseguia ver nada nos teus. Estendeste-me a mão, com medo que eu desaparecesse, sem antes teres esse prazer. Lentamente passaste-me a mão pelo rosto, enquanto eu te olhava, focada em algo irreal, agora que os teus olhos seguiam as tuas mãos. Paras-te quando encontras-te a minha mão, que bruscamente apertei contra a tua, tornando aquele pecado cada vez maior.

Os nossos olhos cada vez mais juntos, mas a tua atenção focou-se nos meus lábios, que lentamente se abriam, como se obedecessem a uma ordem tua, como que imitando os teus lábios que também se começavam a abrir. Quando ambos os lábios se tocaram, pequenas gotas de chuva começaram a cair, como se o mundo divino chorasse. Os nossos olhos tornaram-se janelas fechadas para o mundo, completamente abertas para o nosso interior. As nossas bocas ficavam cada vez mais juntas e mais ofegantes, como se o beijo fosse algo desconhecido de ambos. Lentamente, pouco a pouco, os beijos intensificaram-se e como numa coreografia, todo o teu corpo se movia, tocando-me nas costas, no cabelo, querendo sentir tudo de uma só vez. Como um belo pecado, aproximei mais a tua cabeça, junto á minha, e cada vez mais as nossas bocas pareciam uma só.

A chuva teimava em cair e nós teimávamos em continuar aquele beijo doentio e frenético. Poderíamos ouvir a chuva, a água que começava a correr pela rua fora, os poucos carros que passavam e apitavam, isto, caso deixássemo-nos de beijar... mas não deixamos. Apesar das gotas serem cada vez mais, mais pesadas e frias, os nossos corpos permaneciam quentes. E incapazes de se separarem, apesar de apenas estarem ligados por um beijo.

Como uma trovoada ou um bom pecado, deixei-te abruptamente, sussurrando algo no teu ouvido, como um murmúrio dos infernos, e sorrindo misticamente. Comecei a correr dali, como se levasse comigo a tua alma, que agora não a poderias reaver e tu nada fizeste por isso.


 Ana de Quina (2006)

sexta-feira, novembro 14, 2014

Tristes aqueles...

Tristes aqueles que não conhecem o campo, que nunca sentiram o chamar do vento de norte por entre outeiros, que nunca caminharam perdidos à procura de um trilho inexplorado e que nunca se esqueceram do tempo que os persegue a toda a hora. Tristes são aqueles que nunca sentiram o que é ser livre como a natureza, que nunca se aventuraram a explorar recantos desconhecidos, que nunca fugiram de uma estrada de alcatrão e nunca escolheram um caminho de lama, cheio de pedras e obstáculos para chegar a uma paisagem de cortar o fôlego.

Tristes aqueles que nunca viram um condor a planar no céu ao sabor do vento e nunca desejaram ter asas para voar. Que nunca viram uma lebre a fugir da luz procurando a escuridão da noite, sem medo do desconhecido. Que nunca pararam para ouvir os pássaros a cantar numa árvores, abrigados da chuva forte que corta o ar. Tristes aqueles que nunca arriscaram nada na vida, nunca se atreveram a errar com medo da ingratidão do insucesso e sempre escolheram o caminho mais seguro. Daqueles que vivem de aparências e escolhem sempre o mesmo caminho para não chegar a lugar nenhum, sem ser a um descampado cheio de pedras de granito, onde não se distingue o ser mais podre do menos podre.



Tristes aqueles que são incapazes de sonhar, que sobrevivem às suas rotinas e nunca tiveram coragem de fugir das suas próprias vidas, que nunca tiveram coragem de vir conhecer o campo e saber encontrar-se em si. Deixar de ser quem se é durante uma vida inteira para saber quem realmente se é por dentro. Esquecer os espelhos, despir-se de preconceitos e ficar vulnerável à própria natureza e ao bater do seu coração. Tristes os que se perdem pela cidade e a pouco e pouco se esquecem de quem foram e se entregam ao consumo de uma vida frenética e impessoal. Os que só sabem viver rodeados de gente para não se sentiram sós, sentindo-se integrados numa sociedade cobarde, corrupta e corrosiva de nós próprios.

Tristes os imbecis que acreditam que o que se aprende na escola é um facto incontestável e uma verdade absoluta, e que a vida jamais lhes irá ensinar algo. Tristes aqueles que nunca vão entender a importância de tropeçar e cair, e levantar e vencer. Tristes os que olham sem ver e falaram sem se ouvir. E no dia em que todos decidirem fugir, irão chorar e morrer de agonia por nunca terem sido quem um dia desejaram ser, por nunca terem tido a coragem de fazer um escape de si próprio e nunca mas nunca terem sido felizes com tão pouco, como aqueles que um dia se deixaram perder no campo.

Ana de Quina, 2014

terça-feira, outubro 28, 2014

Se tivesse um desejo...

Se tivesse um desejo, pedia que começasse agora a nevar. Que o céu se abrisse para deixar cair flocos brancos e que cobrisse os meus pés com um manto branco. Desejava que fosse noite escura, iluminada por àrvores cobertas de luzes coloridas. Que o frio me fizesse aconchegar nos agasalhos quentes e que me fizesse esquecer os meus sentimentos. Que me congelasse a alma, o corpo, o sangue, mas nunca o coração. Desejava poder percorrer quilometros a fio sem qualquer compromisso, sem tempo para contar, sem tempo para me controlar, sem tempo para regressar. Deitaria fora todos os relógios e não deixaria a manhã chegar. Seguiria cada passo ao meu próprio ritmo e não colocaria qualquer espectativa no imprevisto.

Se tivesse um desejo, pedia que me roubasses um beijo, para me aquecer a alma. Que valesse por todos aqueles que foram dados de forma mais contida ou mais ponderada. Que me pegasses nos teus braços e me aquecesses com o teu abraço. Desejava que caminhasses do meu lado, também sem tempo e principalmente sem esperares nada em troca, quer de mi, quer de ti. Que me pegasses na mão e não a deixasses, mesmo que o frio nos parecesse cortar à faca. Desejava contar-te todos os meus segredos, todos os meus sonhos, todos os meus medos. Tornar-te no meu anjo da guarda, sem asas e com os pés bem presos no chão. Desejava que o inverno ficasse, que o verão não voltasse, que não fosses embora.

Se tivesse um desejo, pedia para guardar todos os sentimentos que carregas dentro de ti, que escondes da noite, da luz que te aquece neste tempo gelado. Desejava só eu poder ver esses sentimentos... mas que injustiça seria não poder mostrar ao mundo algo tão belo. Sim, chama-me invejosa, quero tudo para mim! Quero o fogo, a água, a terra e o frio. Quero ser parte de uma natureza simples, sem problemas, sem complexidades. Quero poder ser quem não sou, desejando que tu sejas quem és. Guarda tudo para ti, não me mostres nada, caso contrário vou querer o próprio mundo, vou querer o impossivel... e o que é o impossivel? O que é o "não" possível? Se tivesse um desejo queimava a palavra "não", principalmente quando antecede palavras boas.

Se tivesse um desejo, pedia que me transformasse em neve, para cair em cima do teu ombro e caminhar contigo para o desconhecido. É certo que derreteria, que me iria dissipar na atmosfera, mas certamente que me iria transformar em mais e mais flocos. Desfragmentar-me-ia em quantas partes fossem precisas para seguir os teus passos. Se tivesse um desejo, pedia para ser o chão que pisas, o ar que respiras, o abraço invisivel dado no silêncio da solidão, a mão que aquece as tuas no inverno, o raio de sol que te aquece no verão. Pedia para deixar de ser eu, para me poder completar em ti.

Se tivesse um desejo pedia à noite para namorar o dia, para não o deixar aparecer. Pedia ao frio para amenizar o seu vento, para abraçar o calor e à neve que caisse calma e lentamente. Pedia à escoridão que colocasse no meu caminho velas que não se apagassem e pedia ao céu que te trouxesse novamente até mim.


Ana de Quina F. (2014)

sábado, outubro 11, 2014

O velho do Semáforo

Ele é alto, magro, tem a barba por fazer e carrega um olhar vazio e distante. Os carros amontoam-se um a um junto ao sinal vermelho, mas enquanto todos param, ele começa a andar. O que para uns é apenas um compasso de espera, para outros é uma oportunidade de enganar o tempo. As suas mãos velhas e encardidas carregam um bocado de papelão com umas letras escritas. Sim, algo está lá, uma mensagem, um pedido de socorro... mas ninguém lê. Ignoram aquele velho, aquele ser estranho, como também ignoram as suas próprias vidas enquanto esperam impacientemente que aquele sinal mude, nem que seja pelo simples e único facto de se poderem livrar daquela presença desagradável e desconfortante. É realmente desconfortável estar perante uma realidade tão distinta da nossa, principalmente quando nos faz sentir tão pesados nas nossas consciências.

Ninguém se pergunta quem será aquela pessoa ou ainda menos, quem terá sido? Terá família ou estará sozinho no mundo? Neste momento apenas parece uma sombra de si próprio, escondido por detrás da sua barba branca por fazer e do seu olhar sem esperanças. Sabe perfeitamente que não é bem vindo, mas ainda assim, insiste. Quem são os outros para lhe dizer o que deve ou não fazer? Quem são os outros para julgar o que não tem? E se fossem eles mesmo ali, naquela situação? Mas não sabem e muito menos o pensam, porque nem ler as suas palavras escritas naquele bocado de papel conseguem. Olham para a frente como se ali estivesse a resposta às perguntas mais estúpidas que lhes passam pela cabeça enquanto pensam "o que quer este agora?". Tudo o resto é mais importante do que olhar para o lado e olhar nos olhos daquele que passa sem pedir nada em troca.

Fico à espera a ver quem se atreve a baixar o vidro. Ninguém. Quem o faz, até pode dar um troco mas a cada dia que ali passo, pergunto-me se o troco será realmente mais importante do que uma palavra? Quem se atreverá a perguntar àquele homem um simples "Como está?". Duvido sequer que alguém tenha tempo para isso, ou não fosse aquele semáforo uma condicionante para essa situação. Na realidade, naquele caso, não passa mesmo de uma sirene de alerta e salvamento, que nos liberta e nos deixa livres assim que muda de vermelho para verde. Mas a mim, apenas me deixa a pensar que também sou mais um cobarde como eles, que prefere ignorar e partir do principio de que aquele homem é mais um mendicante que pretende enganar a todos com uma história triste e que quer enriquecer às minhas custas. Ou gastar o que diz ser para uma família, em pequenos vicios. Quem sou eu para o julgar desta forma? Quem me garante a mim que talvez quem enriquecesse mais seria eu ao ajudá-lo e ter um "bom dia" para dar, mais do que um simples troco. "Não tenho nada para si, mas tenho um minuto para saber como está!". Não faria isto uma pessoa mais rica?...

Somos tão preconceituosos com o que nos rodeia, menos connosco, principalmente quando somos os primeiros a fazê-lo. Realidades há muitas, ignorá-las é fácil, aceita-las também... mas confrontá-las cara a cara é outra história. E se fosse eu? E se fosses tu? Nunca ninguém pára para pensar nestas pequenas diferenças que nos tornam tão iguais. Seriamos à mesma dois velhos, frios e despegados, que iriam pedir algo, material ou não. E aí sim, teríamos tempo que sobrasse para pensar na vida, para pensar no que tínhamos perdido e no que podíamos ganhar, no que podíamos ter sido e no que podíamos ser, no que podíamos ter feito ou fazer... mas ainda assim consigo invejar aquele velho por comandar a vida ao seu ritmo, por ter tempo para tudo o que nós não temos, por certamente ter prazer nas pequenas coisas e não precisar de muito para ser feliz.

Ana de Quina F.

terça-feira, julho 15, 2014

Festas de Argozelo

Tendo em conta o artigo do São Bartolomeu Freixagosa sobre a falta de informação relativamente às festas da vila de Argozelo, em vez de deixar uma resposta direta no seu blog, decidi contar a minha experiência no ano passado (2013) e a minha opinião em relação às festas da vila que, infelizmente, se reflete em muito daquilo que é feito e deixado por fazer. Claro que há sempre excepções há regra, mas no geral as coisas acontecem da forma que as vejo acontecer.

  • Primeiro que tudo, quem já foi mordomo ou nomeado sabe que ano sim, ano não (ou ano sim, ano sim) é novamente nomeado. Há casos em que parece que não se sai da lista durante anos consecutivos, até fazer a festa. É uma situação triste, tendo em conta que há tanta gente que nunca a fez e a pode fazer: os que a querem fazer rapidamente se voluntariam para ajudar e para ser mordomos, mas como a lista é vasta, o mais provável é não ser aceite (nem que metades não façam a festa). No que toca aos casados não posso falar, mas a festa dos solteiros todos os anos acabam por ser as mesmas caras, isto porque a outra metade que podia fazer a festa prefere ir para as piscinas e ir passear, mas depois queixam-se que as festas não prestam quando não querem participar.


  • Depois há dois tipos de chefia: a organizada e a interesseira. A organizada pretende que quem participa se divirta e possa participar com as suas opiniões; a interesseira apenas pretende ver quanto pode pôr ao bolso (sim meus amigos, meter ao bolso é o temo certo). Já estive nestas duas situações e do ano passado foi o que me fez prometer a mim mesma que enquanto as mentalidades não mudassem, não voltaria a aceitar ser mordoma numa festa. Tive a horrível experiencia dos casados completamente ignorarem as opiniões dos solteiros a todos os níveis: na escolha dos artistas; no material de marketing das festas da vila; organização do bar; quermesse com artigos novos e virado para as crianças em vez dos horriveis cacos de todos os anos... tudo acabava na ordem do "Aqui isso não dá" e do "não temos dinheiro para isso". Então meus meninos, façam as festas sozinhos.


  1. Outra coisa que não entendo é porque as mulheres casadas não podem participar na mordomia? Por machismo? Por dar trabalho? Sempre seriam mais algumas cabeças a ajudar à festa e vamos ser sinceros, as mulheres são muito mais organizadas do que os homens de pastinha. É verdade que trabalhar com muita mulher junta pode dar mau resultado, mas quando trabalham todos para o mesmo, a coisa podia mesmo correr de outra forma. Por isso aqui fica uma chamada de atenção e seria ótimos para todos termos mais mulheres a participar, porque normalmente as solteiras acabam por ser adolescentes que, infelizmente, são completamente ignoradas pelas suas ideias pelos senhores casados.


  • Um dos erros de todas as festas de todos os anos é começar-se a trabalhar para elas só a partir do dia um de Agosto. Se querem festas boas em conduções, porque não se trabalha logo no fim das mesmas? Fazer festas de vindimas, cabazes de natal, jogos tradicionais durante o ano, atividades culturais para promover a terra e angariar mais dinheiro, ter produtos regionais num local específico para vender para as festas... há uma infinidade de atividades que se podem fazer durante o ano, com vontade e espirito de iniciativa, que é o que falta em demasia nesta terra. É por isso que em Junho ou Julho se veem cartazes das festas das outras aldeias espalhados pelos cafés de Argozelo e só quinze dias ou uma semana antes das férias em que se sabe, em Argozelo, do programa das festas.



  • Isto leva-nos a outro problema de mentalidades: infelizmente as festas de Argozelo fazem-se para as pessoas da terra, que cada vez têm menos interesse nelas e não para os que vêm de fora. Por isso é que a cada ano se perde mais e mais público e acaba-se por ir parar às festas por engano, porque se estava de passagem e ouviu-se barulho. Antes nem era preciso fazer publicidade, porque bastava passar no meio do povo para se perceber que havia festa e vida na vila... mas desde que se mudou o lugar das mesmas isso já não acontece, por isso mesmo as estratégias têm de ser outras. É óbvio que as pessoas de Argozelo merecem as suas festas, mas o seu intuito deve ser chamar pessoas de fora, dar a terra a conhecer, conviver.


Mais uma vez, é preciso mudar mentalidades, mudar de atitude. Trabalhar para o bem da comunidade e não para mostrar que se fez. Ter orgulho das responsabilidades que se têm e dar o melhor de nós para o mesmo: Argozelo!

O que era suposto afinal?

Quantas vezes não desejamos fugir da rotina? Em vez de fazermos aquilo que "é suposto"? Em de nos limitarmos a viver mais um dia igual ao outro? Quantas vezes não queremos fazer algo diferente? Desviarmo-nos daquilo que sentimos ser o nosso próprio caminho... mas quem nos impede? Obrigações? Compromissos? Preguiça? Um inumero mal de desculpas que encontramos para não sairmos da nossa zona de conforto. É um risco, é desconfotável e achamos sempre que algo vai correr mal se não "estiver nos planos" dos nossos acontecimentos. E o que é a vida afinal, se não um risco? Do que serve a rotina se não a podemos quebrar? Se o inesperado não existisse, o que seriam as nossas vidas?

Um dia peguei no carro à hora do almoço e decidi frazer algo "inesperado". Fui direta para o monte e decidi ir almoçar fora. Levava uma salada e uma garrafa de água. Ao chegar ao local, sentei-me à beira do precipicio: Lá em baixo estava o rio, a natureza e a estrada que a atravessava em paralelo com aquele rio. Deixei o telefone no carro e fiz questão de são ser encontrada. Tinha aproveitado e deixado o radio a tocar, tendo como banda sonora músicas dos anos 80, que sempre me fazia voltar atrás no tempo. O vento soprava de forma delicada e a salada refrescava o calor que se sentia àquela hora da tarde. Embora estivesse sozinha sentia-me protegida e o melhor de tudo era sentir-me realmente ousada por estar a fazer algo fora do comum, algo que "não era suposto" e estar a fugir à rotina. Por momentos, imaginava-me a viver uma outra vida, tudo graças àquele momento impulsivo. E não tinha sido por acaso que me tinha sentado no limite do precipicio, sentia-me no limite de mim mesma, da minha vida.





Quando terminei reparei em algo que chamou a minha atenção. Uma águia ou falcão planava mesmo à minha frente. Ele, tal como eu, guiava-se pelo sabor do vento. As suas asas estendidas não batiam. Planava apenas. Às vezes aproximava-se do solo, confundindo-se com o rio que não parava de correr e outras vezes parecia que se iria perder na imensidão daquele céu azul. Houve um momento em que parecia apenas planar a observar-me, tal como eu estava a fazer, sentada naquele precipicio. Ele não soube mas naquele momento invejei-o. Invejei a sua liberdade, as suas asas abertas e o desconhecido que tinha de enfrentar. Era o rei dos ares, enquanto eu, mesmo sendo a dona da minha vida me sentia presa a uma rotina que queria cortar a todo o custo, da qual pensava não conseguir escapar até àquele momento. Fechava os olhos, sentia o vento, o som do rio lá em baixo e tentava sentir o mesmo que aquele animal selvagem. Respirei fundo e voltei a abrir os olhos. Porque tinha de ser tudo tão complicado? Porque tinha de ser tudo tão "suposto"? O que era suposto afinal?

Decidi caminhar. Não sei quanto tempo a caminhada durou, apenas sei que me perdi nos meus passos e nos meus pensamentos enquanto andava às voltas naquele recinto de capelas e de precipícios. Apesar de tudo era reconfortante estar ali, longe de tudo e de todos, onde me podia sentir compreendida pela próprio natureza, sem me sentir julgada. Depois da caminhada fui embora, novamente no carro. Fui fazer "o que era suposto" para o meu dia-a-dia, mas antes de voltar para o trabalho, regressei àquele lugar. Estacionei o carro em frente à capela, subi as escadas, saltei para o muro onde ainda batia o sol e comecei a escrever. Não só tinha quebrado a rotina naquele dia, como o tinha feito duas vezes. Para principiante já estava a arriscar. Mais uma vez não quiz ser encomodade e deixei o telefone no carro. De quando em quando passavam outros carros e, embora muitos estivessem curiosos com a minha pessoa ali sentada, nenhnum se atreveu a parar. Eu fingi que não os via, que continuava sozinha naquele lugar. Agora era apenas eu, a natureza, uma folha em branco e uma caneta na mão. E isto sim, era o que o eu achava que era suposto eu fazer, aquilo que realmente me dava prazer. E de algo inesperado nasceu uma nova rotina e todos os fins da tarde ia escrever para cima daquele muro. Chamava-lhe o "muro da liberdade", a mesma que eu não tinha, sem ser naquela hora em que o mundo era meu.

sábado, janeiro 18, 2014

O meu Cisquinho!

Pois é, se há coisa que nunca pensei foi ter um gato - não podia deixar em branco esta nova companhia do meu dia a dia. Sempre cresci com cães e, por isso mesmo, aí do gato que se atrevesse a atravessar as paredes que davam para o jardim. Talvez por isso nunca tenha tido qualquer tipo de afeto por gatos, embora os acabasse por achar fofos, mas só quando eram pequenos e numa fotografia onde não podiam morder nem arranhar. Mas a verdade é que até sei de onde vem o meu desinteresse por gatos, por causa da Camila - pena um nome tão lindo ser dado a uma gata tão má. Ela era a gata da minha avó, a pior que já vi: era má, ciumenta, possessiva e vingativa.O animal mais manhoso e mais reles com quem já me cruzei. Quem não a conheceu, não iria sentir falta. E cada vez que era para ir visitar a avó, ou ela a fechava a sete chaves num canto perdido da casa, ou então a visita ia ser um terror: arranhadelas à socapa, bofadelas a cada canto, chapadas na cabeça ao passar ao lado das escadas... até ao dia em que o feitiço se virou contra o feiticeiro e, com uma patada bem dada, a Camila deixou de aparecer no meu campo de visão. Foi a primeira e única vez que fiz mal a um animal e no dia em que a gata morreu, foi um descanso para todos.

A verdade é que estar em casa sem uma companhia alimanesca é das coisas mais triste que já passei. Um vazio de todo o tamanho, um silêncio a cada canto e falta de ter alguém que não nos vai julgar racionalmente. Já há muito que andava a pensar arranjar uma companhia de quatro patas e tudo mudou numa noite, depois de uma visita a um amigo. Ao sair de sua casa, deparei-me com uma bola de pelo a deambular pela estrada que, por sorte, não atropelei. Quando encostei e parei o quarto, deparei-me com um gatinho amarelo, super fofo e bastante frágil. Não pensei duas vezes e embrulhei-o na camisola, desaparecendo num abrir e fechar de olhos. Em casa, não recusou o iogurte e o leite, as coisas que tinha à mão para um visitante inesperado daqueles. Ele deve-se ter sentido tão seguro que não se calou toda a noite até o deixar dormir num cantinho do quarto, em vez da garagem. Não tardou em ser batizado de Miska, mas ainda estavamos a criar laços quando, ao fim de uma semana, morreu. Ao que parece tinha a barriga furada por ter sido atropelado por outro carro. Chorei que se tivesse perdido o meu cão de há anos, ou até alguém bem próximo... mas simplesmente era frustante por ser a primeira vez que tinha um gato, a primeira vez que tinha resgatado um animal da rua e a primeira vez que deixava morrer um companheiro de quatro patas num curto espaço de tempo.



Quem me conhece sabe que adoro animais, por isso mesmo, não descansei até ter outro gato. Já não queria um cão, queria sim um segunda oportunidade para ter um companheiro de guerra com bigodes gigantes, umas patinhas esponjosas e uma língua áspera, que fazia barulhos esquisitos quando estava contente. Foi então que, passado um mês, apareceu o Cisco, através de um anuncio na internet. E no dia em que chegou, estava ansiosa para abrir a caixa com a minha encomenda peluda. E quando aqueles olhinhos - verdes na altura - olharam para os meus, foi amor à primeira vista. Tinha medo de também o perder tão depressa, talvez por isso tenha sido ainda mais mimado. Apenas não queria que se tornasse numa Camila, maldosa e arrogante. Aos poucos, foi-se tornando num curioso, sociável e brincalhão. Embora, viesse quem viesse, a pessoa a quem ele recorria a pedir mimos, comida ou simplesmente atenção, era sempre eu.

Sendo a primeira vez que era responsável por um animal, fora o papel de mão de dar de comer, beber, limpar a areia, etc... o que mais me custou foi ter de ralhar. Inicialmente pensei que ao ralhar o ia levar a ter uma atitude agressiva como a maldita Camila mas aos poucos fui vendo que era precisamente o contrário. Era preciso ralhar para educar, para lhe mostrar aquilo que podia e o que não podia fazer, as regras do meu espaço em contrapartida com o dele. E hoje basta uma palavra para saber o que está certo e o que está errado. A teimosia de ambos é desafiadora, ao ponto deste reguila me desafiar quando não está ele contente com algo. É aí que começa a caça do rato e do gato. Mas o melhor de tudo é ver como o Cisco acorda sempre como se tudo fosse uma novidade, nem que seja um saco novo para se enfiar lá dentro ou uma nova caixa de cartão para fazer de nova casa, num canto perdido. Até a sua atitude fascista podia ser alvo de estudo, a forma como quer impôr a sua vontade, sem cedências e com insistência. E por mais opinião que os outros tenham, apenas a dele importa, por isso, se tiver de se escapulir pela porta, vai... se tiver que correr em cima da cama, sem a deixar fazer em condições, corre... se tiver de se deitar no sofá e não deixar ninguém se sentar, deita-se... e se tiver de pedir mimos, da forma mais insistente e chata de todas, pede!

A verdade é só uma, quer seja cão ou gato, não há companhia melhor do que a de um animal que não julga as nossas ações.... que mesmo que estejamos de mau humor têm sempre um carinho para nos dar... mesmo que sejamos duros com eles, vão sempre saber agradecer o amor que lhes damos... mesmo que haja dias em que nos apeteça desistir de tudo e de todos que nos rodeiam, eles vão-nos dar um único motivo para ficar!

sábado, dezembro 14, 2013

Os mundos do Inverno

Sempre ouvi dizer que muitos escritores, para ganhar inspiração, se deslocavam para países nórdicos, cobertos de frio e neve, onde o sol não penetrava por entre aquelas nuvens escuras e prontas a desabar. E tal como a inspiração parece não vir numa praia paradisíaca, a imaginação também se parece dissipar. 

Não há nada melhor do que uma imagem campestre coberta de neve, com pequenas casas de pedra em escadinha a contrastar com o branco da neve, para se tornar no cenário ideal para a chegada de um estranho a esse local, de forma a desenrolar uma ação misteriosa... 

Não há nada como uma lareira com um lume abrasador, onde um gato dorme no seu recanto, enquanto uma rapariga lê um livro no sofá em frente ao lume, em pijama, acompanhada de uma chávena de café, enquanto espera pelo amor da sua vida que, naquele momento, foi à rua buscar mais lenha, para dar inicio a uma história de amor atribulada mas, onde o amor arde como aquele fogo... 

Não há como um dia de trovoada, de chuva intensa, onde um condutor perde o controlo de um carro, ao ver uma imagem pouco nítida na sua frente, desviando-se de forma abrupta para dar início a um policial de investigações sem fim... 

Não há nada como um dia de vento, ao pôr do sol, com o céu em tons entre o azul e o cinzento, contrastando com o verde dos relvados e as folhas em tons de fogo, que caiem e parecem queimar a própria terra, cobrindo-a de dia para dia, tornando-se na imagem ideal para um poeta, sentado debaixo de uma dessas árvores, começar a escrever um poema de amor, imaginando a sua deusa a percorrer aquelas paisagens... 

Não há nada como a chuva a bater insistentemente no vidro de uma janela, fazendo um arranjo de gotas, como um puzzle, parecendo chorar como a criança que olha para além desses vidros, depois de um momento de perda, sentindo-se à parte do mundo que o rodeia, para a mãe o vir resgatar da sua própria solidão... 

Não há nada como um nevão imparável, para reunir um grupo de amigos num quarto de uma estância perdida na montanha, contando histórias e bebendo vinho ao serão, apaixonando-se secretamente por pequenos detalhes de cada um, escondendo desejos recentemente descobertos, dando início a uma busca pela felicidade, enfrentando o mundo... 

Não há nada como as luzes de natal a cobrir uma árvore decorada por uma criança que apenas deseja um cão como prenda de natal, não imaginando que o mesmo se encontra escondido na cave, dentro de uma caixa enorme e colorida, atento ao barulho de um coro natalício que se encontra à porta para dar as boas festas aos seus futuros donos, para dar início ás suas aventuras naquela casa, naquela nova família... 

Não há nada com uma manhã de nevoeiro, para desvendar a luz de uma cabana abandonada, onde mora uma pequena feiticeira que apenas é procurada para ver no seu caldeirão o futuro dos habitantes da vila mais próxima, que a evitam, excepto uma pequena rebelde, que teima em desafiar toda a gente para conhecer a bruxa e adquirir o seu conhecimento, para fazer reviver o nosso lado criança que ainda quer acreditar na magia...

Não há nada como uma noite invernosa estrelada, com um frio cortante que parece atravessar as veias quentes do jovem que pretende enfrentar tudo e todos pelo seu amor, até mesmo atravessar aquele ar gélido, coberto por uma capa negra, confundindo-se na noite, para entregar uma carta ao seu amor, que o espera à janela de um quarto igualmente gelado, com receio de ser descoberta e levada dali para longe, dando asas a um romance digno dos clássicos...

Uma estação e mil mundos dentro dela... várias formas de olhar pela janela... uma infinidade de sentimentos!

segunda-feira, abril 29, 2013

Excerto MEC - O Amor é Fodido

Sou daquelas pessoas que não consegue ler um livro sem sublinhar, nem que seja uma mera frase que ache interessante ou que me faça pensar nela. Para alguns isso é "assassinar" um livro mas para mim é uma forma de salientar a essência daquele mesmo livro e daquelas palavras. Mas curioso foi ver que, ao sublinhar algumas passagens e voltando a ler esses mesmos sublinhados, dei por mim a ler um livro completamente diferente daquele que inicialmente tinha lido. Caso disso, deu-se com o último livro que li - O Amor é Fodido do Miguel Esteves Cardoso. Venho agora partilhar esse mesmo "livro" que dei por mim a descobrir depois de o voltar a ler de uma outra forma.

"Adeus - aonde mandamos as pessoas. A última sílaba que ouvimos é dum nome que só conhecemos porque jurámos que nunca o havíamos de dizer. Seria alegre termos sido capazes de nos despedirmos bem, ao menos uma vez. A todos os outros foi-nos tão fácil dizer adeus. Nós éramos danados, especialistas nos reencontros e no «vamos mas é continuar juntos».
A palavra «reencontro» faz-me rir. é daqueles dois és. (...) É esse o curso que quero seguir, se for obrigado a escolher um. Ser como um cheiro que permanece, ligado a um momento que se esqueceu. (...) Ai, o meu mal de amor. Todo o mal que tenho feito e que me tem acontecido, vem-me do amor que me tiraste. (...) A minha bondade deve ter sido pouca, para eu tê-la gasto  toda contigo. Mas o meu amor era imenso. Escusavas de tê-lo açambarcado todo. (...)

Serei um lembrador, uma conservatória, com os meus assentos de mortes e nascimentos. Tenho jeito para recordar - é a única coisa que me resta fazer desde que nasci. Tive sempre consciência que os momentos e as experiencias eram só matérias-primas, primeiros passos - os únicos. Serei o teu lembrador, quem te lembra, quem te aproxima de quem eras. Não falarei com ninguém, mas ai de quem vier falar comigo. Hei-de chatear toda a gente com a tua pessoa. Ai, as histórias que vou contar, nunca mais acabarão, serão feitas só de coisas simples, como cafés e cinemas, nada de íntimo ou de interessante, só banalidades, daquelas que dão cabo de mim, que não consigo esquecer por mais uma - meu Deus, como vou chorar!(...) Hei-de ser o caseiro do teu coração, no sótão do meu. Guardarei os teus restos num caixote da minha cabeça. Serei quem se lembra de quem tu eras e em nada me impedirá o facto de eu não fazer ideia do que isso seja.(...)

(...) Pensava que merecias melhor que eu, que te ias fartar de mim, que me ias descobrir. E afinal a única coisa que eu tinha para descobrires, à parte o meu grande amor, era a minha queda para a cobardia, e para ti. (...) Estou sempre a cair em ti, em vez de em mim. Só assim eu poderia tomar consciencia da minha situação, pentear-me, deixar de beber e de me lembrar - e salvar-me. Mas é no meu amor, nos teus olhos de água suja, de um mar que não tem cabo, que eu caio cada vez que se deita o meu olhar. (...) Quanto mais longe, mais perto me sinto de ti, como se os teus passos estivessem aqui e dizer-te quanto te amo e como te procuro, no meio de uma destas ruas em que te vejo, zangado de saudade, no céu claro, no dia frio. Devolve-me a minha vida e o meu tempo. Diz qualquer coisa a este coração palerma que não sabe nada de nada, que julga que andas aqui perto e chama sem parar por ti. (...)

(...) O que custa não é tanto lembrar - é não esquecer. O que é que se faz com o que nos fica na cabeça, quando já não há nada para fazer? (...) O meu coração tem a lembrança curta e as minhas mãos só servem para te tocar. Abriga-te, guarda-te, justifica-te, no meu peito grande. O tempo vai mal para quem foge só por fugir - ajuda quem desistiu de alguém por quem procurar. (...)"

Miguel Esteves Cardoso - O Amor é Fodido, 14ª Edição, Assírio & Alvim

Resumir um livro de 187 páginas com uma história hilariante e muito sexo e palavrão à mistura, nada tem a ver com esta aclamação à saudade, ao amor incondicional e ao poder da mente e do tempo, que encontramos neste excerto que, a meu ver, podia bem ser uma carta que nunca será escrita! É este o poder da leitura e do detalhe por detrás da verdadeira obra.

sábado, janeiro 19, 2013

Pais Vs. Filhos

Depois de ler um livro e ter estado a digeri-lo por alguns dias, dei por mim a pensar constantemente na mensagem do mesmo. Confesso que é daqueles livros que, caso não fosse o facto de estar a 2euros, certamente não me daria ao trabalho de dar 15euros como costuma ser o seu preço de venda, logo, não teria muita curiosidade em agarrar nele, embora o facto de se passar em Itália, seja sempre uma mais valia para ler um livro, seja ele de leitura fácil ou simples. Em dois dias devorei o livro, mas um dia tinha chegado perfeitamente, pela sua escrita fluente e claro, por ser um romance. Não interessa  o titulo, não interessa a verdadeira história, mas sim a questão essencial que me deixou a pensar nestes dias.

Essa questão é simples: até que ponto conhecemos os nossos pais? E até que ponto os nossos filhos nos chegaram a conhecer a nós?... A situação é simples mas demasiado complexa no que toca à verdadeira atitude. Primeiro dei por mim a concordar com o facto de, muitas vezes, os nossos pais (meus ou doutras pessoas quaisquer) parecerem ter-se esquecido que, um dia, também foram da nossa idade, também foram como nós. Até que ponto podemos ser realmente "chegados" se não sabemos aventuras, sonhos, amores, vitórias, desgostos e situações que os fizeram ser aquilo que são hoje. Muitas vezes se fala dos tempos de criança e é natural, porque são tempos em que, com o próprio tempo, apreciamos e damos mais valor por termos tido a vida aos nosso pés sem uma única preocupação.

Mas outras vezes, o tempo da juventude, em que nos começamos a tonar homens e mulheres, parece ser algo mais complexo de partilhar. É aqui que parece que o tempo se apagou, entre os 25 e os 35 e é aí que parece que os nossos pais passaram de crianças e jovens para pais adultos e responsáveis  Então e o resto? Os dissabores da vida? As alegrias das conquistas pessoais e profissionais? Os tempos e as modas? Os amigos e aqueles que nunca mais voltaram a ver? As promessas desfeitas e os imprevistos da vida? Tudo parece ter-se perdido no tempo. Então e nós? Será que também nós, filhos, quando nos tornar-mos pais, também nos vamos esquecer daquilo que fomos? Daquilo que éramos e daquilo em que nos tornámos? Seremos capazes de ser sinceros e abrir-mos o livro das nossas vidas de forma a partilhar e demonstrar aos nossos filhos que, além de pais, também fomos pessoas como eles? Até que ponto a nossa visão sobre eles se pode alterar para nós? Aproximar ou afastar? Quem eram eles antes de estarem juntos e quem se tornaram depois?

Tudo isto é muito complexo, por muito simples que pareça. Parece que o factor "pais" pesa na vida de todos nós. Parece que fomos esquecendo uma parte de nós próprios porque nos viramos para os filhos, mas será que os filhos não gostariam de sentir que também os pais erraram, também os pais sonharam, também eles conseguiram ultrapassar dificuldades, também eles amaram mais do que uma vez e também eles bateram com a cabeça no chão ao pensar tomar um passo certo? E isso, chega para conhecermos a nossa família, que nos protege.... e a nós próprios? Até que ponto, sabendo mais ou menos, poderá alterar a nossa identidade, aquilo que pensamos ser, para quilo que realmente somos? São todas questões que nestes últimos tempos me fizeram analisar a nossa capacidade de comunicar em família porque, quantas vezes passamos horas a falar de tudo com outros e nem somos capazes de falar do que aconteceu num dia a um familiar? Até que ponto só mostramos parte de nós àqueles que merecem o nosso todo?

Fica a questão no ar. E claro, a ideia de que há livros que podem ser mais do que uma bela capa, uma bela história. Pode ser a porta para uma ideia, um pensamento e uma atitude. Sem duvida que continuo a preferir a companhia de um livro, a muita da tecnologia que nos rodeia e sem dúvida que cada vez mais a família se torna o centro de tudo o que eu faço!

terça-feira, novembro 20, 2012

O eterno mal amado!

É nestes dias de chuva que nos lembramos do tão mal amado chapéu de chuva, que é pura e simplesmente o objecto mais odiado à face da terra, quer o tragamos connosco ou não! Se o trazemos, é porque é chato andar com ele, inconveniente ou simplesmente somos possuídos pelo medo de nos esquecermos dele em qualquer canto e, ainda pior, voltar a precisar dele a meio do caminho para casa quando estamos prestes a levar com uma chuvada repentina que teima em descarregar em cima de nós, mesmo depois de nos lembrar-mos que o deixamos no autocarro ou na entrada de uma loja, momento em que iniciamos uma busca frenética ao dito objecto que nos parece salvar quando menos esperamos; se não o trazemos é porque estava um dia manhoso e não nos prevenimos para a possibilidade de caírem umas pingas só para nos chatearem e acabamos por amaldiçoar o momento em que não fomos ver o tempo antes de sair de casa e muito menos nos lembramos do chapéu porque apenas nos lembramos dele quando realmente precisamos. Mas pior do que isto tudo, é transportar este objecto de trás para a frente, durante um dia inteiro e não precisar dele... isto porque saímos de casa com a ameaça eminente de que alguma coisa nos vai cair em cima e o céu vai abrir e desabar sobre nós em forma de gotas... e no fim do dia decide aparecer um sol magnifico e resplendoroso, que nos cria um sentimento de profunda raiva pelo tão mal amado guarda-chuva.

Aqui pelo nordeste, a regra é básica: não usar guarda chuva, a não ser que caia uma escaravanada do tamanho de um diluvio bíblico. O ideal é sair de casa com um anorak (agora muito na moda porque quispo parece algo realmente feio e demasiado inestético como um anorak também o é) ou um simples casaco que tenha capuz ou gorro. Caso isto não aconteça, pode sempre optar-se por um simples chapéu impermeável ou até um simples cachecol que em vez de enrolar no pescoço, nos cobre a cabeça, porque no fundo, o importante é proteger o cabelo e nada mais. Caso esteja a cacimbar até nos podemos atrever a andar pela rua como se estivesse um magnifico dia de sol, já que a chuva miudinha nunca matou ninguém! É a chamada chuva molha parvos, mas aqui não molha ninguém. Não esqueçamos que temos sempre o refugio dos toldos das lojas de rua para nos abrigar, podemos aproveitar uma ameaça maior para ir tomar um cafezito e prolongar a estadia enquanto não pára de chover porque não temos "o abrigo" ou simplesmente enfiarmo-nos para um canto qualquer e meter conversa com quem também está à espera que a chuva passe. Podemos não ter paciência para mais nada, mas temos sempre paciência para deixar passar a chuva e ficar à abrigada ver as gotas caírem no chão e a formar possas d'água. O que realmente não há é paciência para andar constantemente a abrir e a fechar um guarda chuva, que odiamos carregar e trazer connosco.

Isto sem falar naqueles (realmente) malditos dias em que a chuva decidi vir acompanhada do seu grande amigo vento. Aí sim, mais vale a pena apanhar uma bela molha e ficar que nem um pinguim com o pelinho todo esticadinho e habilitarmo-nos a ficar três dias de cama com uma gripalhada, do que andar numa luta infinita com o guarda chuva, que teima em empurrar-nos para todos os lados, levá-lo com ele para o fim do mundo e ainda se partir nas nossas mãos, o que nos vai fazer entrar em despesas, fora a do médico. Ai sim, somos nós próprios que temos vontade de o partir no chão, espezinhá-lo, atirá-lo contra alguém e rogar pragas gigantes ao maldito inventor do guarda chuva, que provavelmente até o criou num dia de sol! E vamos lá ser sinceros, quer sejam os portáteis ou os grandalhões, não dá jeito nenhum andar com este objecto... mas ainda pior, é ir contra alguém porque não vemos o caminho por causa dele, ou ver as criancinhas com chapéus com orelhas de urso ou olhos de sapo abertos no meio da rua. Enquanto não inventam outra coisa, às vezes ele lá nos vai salvando mas quando é para dar um saltinho daqui ali, mais vale ir a correr ou encontrar outras alternativas, porque o guarda chuva, ao fim ao cabo, vai sempre levar-nos a tomar uma aspirina, nem que seja para a dor de cabeça que nos dá.

quinta-feira, outubro 18, 2012

Excerto de Guy de Maupassant

Ao ler o livro do Bel-Ami, dei por mim com uma reflexão bastante sábia sobre a velhice, a morte, as expectativas da sociedade e da própria vida, que não resisti em partilhar. Espero que gostem tanto quanto eu!

"(...) - É possível  No país dos cegos quem tem um olho é rei. Todas essas pessoas, acredite, são uns medíocres, porque têm o espírito entre dois antolhos: o dinheiro e a politicas. São uns pedantes ordinários, meu caro, com quem é possível falar de algo, de algo de que gostemos. A sua inteligência tem um fundo raso, ou melhor, é um fundo de depósito de imundices, como o Sena em Asniêres. Ah! É muito difícil encontrar um homem que tenha espaço no pensamentos, que nos dê a sensação dessas grandes rajadas que respiramos à beira-mar! Conheci alguns, mas já morreram.
(...) - Isso, aliás, não é importante, um pouco mais ou um pouco menos de génio, se tudo tem de acabar!

- Está a ver tudo negro, hoje, caro mestre.
- Tenho visto sempre assim, meu filho e verá da mesma forma como eu vejo, dentro de alguns anos. A vida é uma encosta...Enquanto subimos, olhamos para o cima e sentimo-nos felizes; mas quando chegamos lá acima, descobrimos, de repente, que a descida é o fim, que é a morte. A coisa anda lentamente quando subimos, mas depressa quando descemos. Na sua idade, somos alegres, sonhamos com tantas coisas, que, aliás, nunca se realizam. Na minha idade, já não se sonha ter nada, a não ser a morte.
- Apre! Causa-me calafrios!
- Não, não compreende hoje, mas há-de lembrar-se, mais tarde, do que lhe estou a dizer neste momento. Chega um dia, e às vezes chega cedo para muitos, em que se deixa de rir, pois por trás de tudo é a morte que vemos. Oh! Não compreende sequer esta palavra: Morte. Na sua idade, não significa nada, é terrível. Sim, compreendemo-lo de repente, não sabemos porquê nem o propósito de quê. Então, tudo muda de aspecto na vida. Por mim, há quinze anos que a sinto a minar-me como se trouxesse cá dentro um animal a roer-me. Dei por isso, aos poucos, mês atrás mês, horas atrás de hora, a abalar-me assim como uma casa que vai ser derrubada.(...)

(...) - O que deseja? Amor? Ainda mais alguns beijos e ficará impotente. E que mais? Dinheiro? Para quê? Para pagar a mulheres? Que bonita coisa! Para comer muito, ficar obeso e gritar noites inteiras com as mordeduras da gota? Que mais? A glória? De que serve, quando já não podemos colhê-la sob a forma de amor? Que mais ainda? Sempre, no fim de tudo, a morte!(...)

(...) - Ninguém regressa. Nunca. Guardamos as formas das estátuas, os cunhos de que se fazem os objectos iguais; mas o meu corpo, o meu rosto, os meus pensamentos, os meus desejos, não voltarão mais. No entanto, nascerão milhões  biliões de seres que terão, no espaço de alguns centímetros quadrados, nariz, olhos, testa, face, boca, tal como eu, e também uma alma como eu, sem que jamais eu volte, jamais, qualquer coisa de mim que seja reconhecível reaparecerá nessas criaturas inumeráveis e diferentes, indefinidamente diferentes, embora quase semelhantes. A que nos agarramos? A quem dirigimos os nossos gritos de socorro? Em que podemos crer? Todas as religiões são estúpidas com a sua moral pueril e as suas promessas egoístas, monstruosamente tolas. Só a morte é certa.

(...) - Pense nisto, mancebo, pense nisto, durante dias, meses e anos, e verá a existência doutra maneira. Tente libertar-se de tudo o que o prende, faça um esforço sobre-humano para sair vivo do seu corpo, dos seus interesses, dos seus pensamentos e da humanidade inteira, para ver outra coisa, e compreenderá que pouca importância têm as lutas entre os românticos e os naturalistas ou a discussão do orçamento.

(...) -Eu cá sou um ser perdido. Não tenho pai, nem mãe, nem irmão, nem irmã, nem mulher, nem filhos, nem Deus. (...) Só tenho as rimas.(...)"


«Et je cherche le mor de cet obscur problème
Dans le ciel noir et oÙ flotte un astre blême.»

quinta-feira, outubro 11, 2012

A Tradução é um Puzzle

Não é que goste muito de falar de coisas teóricas, mas hoje apetece-me falar um pouco do mundo da tradução. Ao contrário do que muitos julgam, a função de tradutor exige mais do que um conhecimento de uma língua: exige o conhecimento da cultura da língua materna e da língua que se vai traduzir, exige uma cultura geral elevada, exige um interesse por matérias diversificadas e claro está, uma actualização a todos estes níveis. logo, o tradutor deve ser alguém "multifacetado" dentro daquilo que lhe compete fazer, ou seja, tornar um texto o mais perceptível possível na sua língua materna. E não vamos confundir tradução com retroversão, uma vez que são coisas completamente distintas (traduzir da língua materna para uma língua estrangeira) e que exige ainda mais de quem traduz, a todos os níveis.


Gosto de comparar a tradução ao mesmo processo de construção de um puzzle: algo moroso, que exige paciência  concentração e muitas horas de dedicação. E quem gosta de fazer puzzles sabe bem o que é não descansar enquanto este não estiver concluído (a tradução pode ter este efeito quando se gosta do que se está a traduzir) e o que é avançar e pequenas peças fáceis de destingir e demorar horas a encontrar a tal peça de uma cor que parece igual a todas as outras peças da mesma cor. Por isso, a tradução não passa de um jogo de lógica, onde o contexto textual dita as regras, onde a cultura está sempre presente, onde a terminologia não tem fim. Uma pessoa bilingue apresentará uma tradução mais fluente e natural, enquanto que um estudante de tradução apresentará uma produção mais virada para a técnica da tradução.

De todos os processos tradutórios o que menos me agrada, é a tradução literária. Neste momento, não me atreveria a envergar por este caminho, pelo simples facto de ter consciência que só alguém com muita experiência e muito conhecimentos literário que eu sei que não tenho), poderá apresentar algo fabuloso. Pior do que isso, é o distanciamento que tem de haver entre quem escreveu e quem vai traduzir, e pensar que o tradutor se pode tornar num "violador" do texto original, é algo que não me agrada! Chamem-se céptica ou antiquada mas realmente não me iria agradar pensar que alguém pudesse alterar ou adaptar algo que tenha escrito ou dito e, como tal, ainda não me sinto capaz de trabalhar nesta área da tradução. Talvez seja apenas por ingenuidade, mas quem sabe, lá para os 40 tenha capacidade para isso.

De momento estou mais virada para a tradução audiovisual, bastante mais dinâmica, e para a tradução técnica, que acabam sempre por acrescentar novos currículos ao nosso conhecimento. Além de ter temas mais diversificados e a pesquisa ser mais exigente, é um processo muito mais atractivo. Não há nada como uma mesa cheia de dicionários, prontuários, enciclopédias e passar o dia à procura, como quem tenta encontrar uma agulha no palheiro.

Por isso, para quem pensa que traduzir é apenas passar de uma língua para a outra, só com a consulta de um dicionário ou de um tradutor online, que se desengane... é preciso procurar, encontrar, desenvolver, retorcer, avançar, voltar atrás, rever, escrever e reescrever, pesquisar, confirmar... e tudo em prol de que as palavras e os sentidos não se percam pelo caminho!

segunda-feira, setembro 24, 2012

Chegou o Outono!

E do dia para a noite... frio! Hahahaha, parece que as minhas preces foram ouvidas, já que sentia falta daquele friozinho de arrepiar o pêlo. Agora é uma questão de começar a meter as sandálias e as roupas frescas para um canto e começar a tirar as mantinhas, os casacões e as botas todas cá para fora do armário. O pior é que dentro de casa ainda continua a fazer bastante calor e torna-se desagradável andar no despe de veste todo o dia. Já dizia a minha mãe que, cada vez que lavava as janelas, no dia a seguir chovia. Confesso que experimentei essa técnica, e não é que resulta mesmo? Foi preciso passar uma manhã a lavar as janelas para chover no dia seguinte! (A verdade é que já estavam mesmo a precisar, de tanto pó que tinham).


Agora vai começar a época do Cappuccino e do chá quente, em troca dos batidos e dos chás frios. Hum, embora os chás gelados da Cafetaria Jerónimo ainda hoje me estejam a saber deliciosamente bem, mesmo estando frio. Isto sem falar nos chocolates quentes! Apesar do mau tempo ser bastante desagradável e não nos querer deixar sair da cama e dar-nos ainda mais preguiça, confesso que se torna uma época bastante aconchegante. E as sessões de cinema já começaram, só falta mesmo a lareira - ainda é cedo! Resta-me agora esperar que as cores vermelhas, laranjas, amarelas e castanhas comecem a aparecer por estas paisagens Argozelenses.


Mas claro, chega este tempo e uma pessoa já pensa no inverno, na neve (que não veio o ano passado, por isso é bom que venha este ano), na apanha da azeitona (que uma pessoa vai andar partida durante um mês), no dia de todos os santos (com mais um fiadeiro e mais uma visita ao cemitério durante a noite), e claro, nas jantaradas caseiras com os amigos, porque, quer seja verão, quer seja inverno, as companhias contam sempre muito! Mas antes, temos tempo para umas vindimas que, curiosamente, nunca participei e por isso, estou curiosa para saber como vai correr essa experiência!


Já que consegui sobreviver a um inverno transmontano, acho que não vai haver grandes problemas em aguentar este que se avizinha. Vamos ver se me safo! Pode ser que aproveite este tempo para me dedicar ao tricô e vá fazendo umas camisolascachecóis ou gorros para o inverno (falta saber fazer isso), mas até gostava! Bom, não é que seja muito de modas - e quem me conhece bem, sabe que não ligo muito - mas aqui ficam algumas dicas de ideias para vestir este Outono. (Pode ser que sejam úteis para algumas meninas)... Mas, por agora, prefiro dedicar-me um pouco mais aos dotes culinários e literários, do que propriamente à costura.